À'ventura
 
 

Raid do Algarve – as minhas aventuras e da equipa Megamedia

A nossa equipa era formada por 2 juniores, o Paulo já com alguma experiência nestas andanças, e o Marco que não sabia muito bem no que se estava a meter, e pelo João Pina experiente BTTista, para além do Luís Borges imprescindível na assistência.
O nosso objectivo era ficar entre o 3º e 5º lugar, com base nos resultados que obtivemos este ano nas provas do PEA. A estratégia era tentar fazer o máximo de CP's possíveis, e dosear bem o esforço, porque nunca teríamos pedalada para dar luta aos primeiros, mas conseguiríamos manter um ritmo constante forte.

1ª ETAPA - Canoagem

A prova começava logo com a modalidade em que éramos mais fracos, a canoagem. Estimámos demorar 6 horas para fazer os 32 kms, e lá fomos pagaindo. Para chegar ao CP2 o pontão nunca mais acabava e parecia sempre que ainda faltava o mesmo. Depois de lá chegarmos e voltarmos para trás vimos que afinal ainda havia equipas atrás de nós a caminho desse CP, o que sempre deu para melhorar o ânimo.

A seguir seguiu-se o tormento da ponte que liga a Via do Infante a Espanha. Horas a remar e nunca mais conseguíamos passar o raio da ponte. Mais um pouco de sofrimento. Por essa altura apercebi-me que o nosso mapa plastificado tinha deixado entrar água, e do ponto 3 só havia uma mancha. Lembrava-me que era na margem direita do rio mas o local exacto já era irreconhecível. Lá conseguimos passar a ponte, e com a corrente a favor que se começava a fazer sentir, deu para chegar ao CP3 onde felizmente estavam outras equipas paradas, o que tornou fácil reconhecer o sítio. Paramos para "almoçar" e curiosamente achámos um mapa da prova no chão em óptimas condições que outra equipa deve ter perdido. Ninguém se acusa? :)

Lá seguimos e com as curvas do Guadiana, a bonita paisagem, e a corrente a favor, a etapa até acabou por não ser tão difícil quanto contávamos, e chegámos com 5h e pouco, melhor que a nossa estimativa. Claro que nessa altura já várias equipas tinham partido para o BTT, mas agora é que a nossa prova ia começar...

2ª ETAPA - Orientação em BTT

Após uma assistência onde os 5 elementos ainda não estavam muito habituados a estas transições, lá partimos para o BTT com vontade de ir a todos os pontos. Fizemos uma boa opção para o CP5 indo paralelos à ribeira e não subindo pela estrada, mas acabamos por passar pelo ponto que não se via bem do caminho, e tivemos de voltar 500 metros para trás. A partir daí começaram as primeiras subidas do dia ainda em alcatrão de Odeleite até aos pontos 6A e 6B, onde o calor apertava fortemente. Tivemos a companhia de mais uma ou duas equipas, mas que foram ficando para trás nas subidas. Para chegar ao ponto 6B um single trek cheio de calhaus veio dar alguma emoção à coisa mas tudo correu bem. Ainda demos com uma equipa que se perdeu e acabou por ir lá só um elemento picar o ponto a pé, mas isso acontece aos melhores :)

 

Aí começou a primeira grande opção, ir fazer os pontos opcionais 7 e 8 do outro lado da ribeira, ou seja descer tudo até lá abaixo, e depois subir, subir, os montes da serra algarvia. Tivemos a companhia de 2 novas equipas, o CP Armada e o BCP em que nos fomos acompanhando por algum tempo. No ponto 7 as casas estavam num monte à esquerda, e enquanto outras equipas foram subir o monte para ir pelo caminho, fizemos um atalho a direito e chegámos lá primeiro, onde encontrámos o primeiro ponto com SI Card. Mais umas subidas e finalmente chegámos ao planalto para o CP8. Antes de lá chegar alguma baralhação nos caminhos, um pouco de corta mato, mas lá demos com o caminho certo. Chegado ao ponto nem olhei para o caminho em frente, fui picar o ponto, e disse ao pessoal para seguir. Só quando levantei os olhos é que vi que o caminho acabava ali... mas afinal não, tinha continuação 50 m mais à frente e lá seguimos. Em teoria ia ser mais fácil pois íamos agora descer de novo para a ribeira e o ponto 9 era logo do outro lado. O problema foi que não voltámos no cruzamento certo, e como era a descer o pessoal entusiasmou-se e toca a abrir. Cerca de um km depois percebi que não podíamos estar bem pela direcção, mas pareceu-me que havia um caminho à frente que encontrava o correcto, e para não voltar a subir decidimos seguir por aí. Só que um km depois quando olhei de novo para o mapa, vi que o "caminho" dizia ribeirão, ou seja, com o cansaço já não distinguia uma linha de água de um caminho, e não tivemos hipótese a não ser voltar para trás até ao sítio correcto, claro que a subir... Por essa altura o João começou a ressentir-se do sol que tinha apanhado na canoagem em que não levou chapéu, e começou com sintomas de febre e de garganta inflamada que teve de ir aguentando. Lá descemos a ribeira, e mais uma subida empinada do outro lado, até chegarmos ao ponto 9, onde a Ana Vilar nos fez a primeira verificação do material.

Aproveitámos a reserva dos burros para uma paragem e beber uma bebida fresca. Já bem cansados olhávamos para o ciclómetro e verificávamos que ainda nem a metade dos 116 kms tínhamos chegado, e a noite estava perto, e as pernas começavam a fraquejar. Lá seguimos, primeiro por alcatrão, e depois de novo em terra com mais subidas até nos cruzarmos com uma estrada nacional, onde abancámos na paragem de autocarro que lá havia, e trocámos as tshirts do dia de sol e calor, pelos polares que o frio da noite nos pedia. Lá nos apanharam o CP Armada e o BCP que tinham ficado um pouco para trás, e partimos em direcção a Mealha. A noite ia caindo, tivemos um ligeiro percalço técnico que nos fez ficar de novo sozinhos, e já de noite chegámos a Mealha, onde encontramos pela 1ª vez a equipa Sempre em Festa, que nos disse que o CP 10 era ali perto, mas sempre a subir e com SI Card. Lá fomos, e nos últimos metros a pé pois a subida era mesmo lixada. Já noite cerrada tivemos de optar entre ir pelo meio dos montes num caminho mais perto mas manhoso, ou ir dar uma volta muito maior mas por estrada. Jogando pelo seguro lá fomos por estrada, mas andando mesmo muito mais, e com muitas subidas pelo meio. Na chegada ao Ameixial já em plena N2 fizemos uma pausa mais séria para jantar e descansar num café que lá havia, com a população que enchia o café, a ver uns seres estranhos a entrarem por ali a dentro, com roupa esquisita, de BTT e muito cansados/esfomeados. Nessa altura detectámos um furo numa das rodas, mas foi o melhor sítio onde nos poderia ter acontecido e trocámos rapidamente de câmara de ar. Depois de algum esforço para sair do café, onde os Sempre em Festa iam despejando todos os tachos que por lá havia, lá seguimos pela N2 em direcção ao CP11. E não é que o raio do engenheiro que fez a estrada a partir do Ameixial se lembrou de passar mesmo pelo marco geodésico que havia lá na zona? Durante kms, foi subir, subir, subir numa inclinação relativamente suave, mas que após um dia daqueles deu para doer. Fomos compensados no alto do monte com um placard a dizer para vermos a vista panorâmica do alto da serra do Caldeirão, onde como podem imaginar à meia noite de 5ª para 6ª tinha uma grande vista :( A partir daí vingámo-nos com a descida, ainda conseguimos arranjar forças para ir ao ponto 11, que embora sendo opcional ficava perto da estrada, e lá fomos visitar mais uns casebres abandonados, onde estava o CP. Já com muito sono e cansaço, seguimos pelo caminho onde andámos a passar pela mesma ribeira meia dúzia de vezes, até chegarmos de novo à N2, e voltarmos para a esquerda para descer o monte em direcção ao ponto 12. E quem disse que descer também não custa? Num caminho não em muito boas condições, uma descida razoável que deu para cansar também os braços até picarmos o ponto. Com mais de 100 kms nas pernas de BTT, e 30 kms nos braços da canoagem de manhã, e com o João a acusar a febre e o Marco já num estado de quase zombie, não deu para arriscar e fomos directos para a chegada em Salir, pois o CP13 era opcional e ainda tinha um desnível de quase 200 m o que aquela hora da madrugada já era demais para a nossa camioneta. A recta até Salir nunca mais acabava, e até a ligeira subida final custou a fazer. Lá chegámos finalmente ao fim da 2ª etapa lá para as 4 da manhã, e após comermos algo, e tomar um banho fomos repousar. Pelo meio o Marco começou a vomitar, e o João continuava a queixar-se da febre e garganta que mesmo com os comprimidos não melhoravam. Estávamos em 7º lugar, as coisas não estavam a correr mal, mas também não estavam famosas. O que seria de nós no dia seguinte com mais 2 etapas de arrasar, com grandes altimetrias e mais de 130 kms? Fomos dormir 3 horas porque de manhã seria outro dia...

3ª ETAPA - Orientação Pedestre

Acordamos um pouco antes das 8h, e confirmava-se o estado não muito saudável do João e do Marco. Após o cansaço do dia anterior e as poucas horas de sono as coisas já funcionavam um pouco mais devagarinho, e por isso demorámos cerca de uma hora para partir. Curioso ver chegar as camionetas com os miúdos para a escola e aquele pessoal todo maluco para partir para mais uma etapa do Raide. Por essa altura chegaram também uma ou duas das últimas equipas e vimos que afinal ainda não éramos os mais atrasados.
Assim que pegámos no mapa a primeira decisão era ver que pontos fazer. Dada a grande dimensão da etapa, o estado da equipa, e os pontos opcionais 14 e 15 da escalada e espeleologia estarem logo no início e com uns kms adicionais (e uma subidinhas a mais) do caminho para o primeiro ponto obrigatório, decidimos de imediato saltar esses e ir directos ao 16, o que nos poupou o transporte dos baudriers.
Lá seguimos sempre por estrada e o ritmo não estava muito forte mas lá íamos andando. Na altura optei por seguir sempre pelo alcatrão quase até ao ponto. Só mais tarde em casa vi que havia algumas opções em que se pouparia um ou dois kms por caminhos mas pelo menos fomos certinhos.
Há medida que o tempo ia passando a vontade de parar era muita, mas íamos insistindo em manter o ritmo, acordando que descansaríamos um pouco ao chegar ao ponto. O Marco ficava às vezes um pouco para trás, dado o seu estado de alguma fraqueza. Passei a levar-lhe também a mochila, e fui acompanhando-o em termos de alimentação de hora à hora e com a muito constante tarefa de o fazer beber água pois era eu que lhe levava o camelback. O tempo ia passando e para "animar" ia contando os kms, só faltam 8, 6, 5, 4, 3,... claro que apenas para o ponto 16 e que depois desse ainda faltariam mais de 30 para a chegada mas enfim. Quando faltavam cerca de 3 kms avistamos ao longe a casa onde deveria estar o CP. Pelo meio mais uma ribeira, ou seja descer até lá, e uma subida de mais de um km do lado de lá monte a cima que se via bem de onde estávamos. Nessa altura já o sol ia alto o que também não ajudava muito. Em todo este troço não vimos uma única equipa, a que associamos terem ido todas fazer a escalada.
Na subida impus um ritmo rápido e lá acabei por chegar ao CP, que afinal não era na casa que se via bem ao longe, mas num casebre 100 m depois. O pessoal vinha logo atrás e aí mais um susto ocorreu: o Marco tinha começado a sangrar do nariz, devido à subida e talvez ao calor. Parámos como combinado para descansar, uma compressa serviu para estancar a hemorragia que era ligeira, e lá ficámos a comer, a trocar de meias para evitar as bolhas e a apanhar um pouco de sombra.
De repente uma equipa se aproxima e quem era senão a Prisma, em grande ritmo, após terem já feito a escalada (onde disseram ter demorado 2h) e a espeleologia. Nem pararam para descansar e seguiram de imediato monte a baixo, e nunca mais os vimos a não ser 3 etapas mais tarde. Vimos que a opção de ter saltado a escalada se calhar até não tinha sido mal para nós, e após ver toda aquela energia da Prisma lá nos levantámos e seguimos viagem monte abaixo e depois muitos montes acima.
Ficámos a saber nessa manhã que o Marco no seu estado de algum delírio gostava muito de hospitais, e dizia que tinha saudades das camas fofas que eles tinham, e das sopas que serviam. Nós lá o fomos animando e dando um pouco a volta, e curiosamente a meio da etapa ele começou a recuperar e a andar a um melhor ritmo, começando aí a ressentir-se mais o João com a sua garganta e as costas que lhe começaram a doer. Por essa altura foi a vez do Paulo levar a mochila do João e íamos 2 cada um com 2 mochilas e os outros dois mais leves para mantermos o ritmo. Por esses montes acima ainda tivemos uns encontros com umas abelhas que gostaram de nós, acho que ainda cheguei a ser picado, mas ou o ferrão não ficou bem espetado, o que é um facto é que o veneno não actuou.
Por essa altura, vi mais tarde que andámos sobre o limite entre o Algarve e o Alentejo, e segundo o mapa estivemos uns metros para o lado do Alentejo, o que fez com que o Raid tenha mesmo saído do Algarve (agora que escrevo isto reparo também que o CP3 se não estou em erro na margem esquerda do Guadiana devia estar em Espanha, não era?). Lá fomos seguindo e vimos que 2 equipas vinham lá ao longe também em bom ritmo e em breve seríamos apanhados. E digo bem seríamos pois com caminhos no mapa e caminhos marcados a caneta, acabámos por seguir em frente num cruzamento onde deveríamos ter voltado à direita, e só quase um km mais tarde ao ver um carro abandonado no caminho, e este ao voltar para a esquerda e não para a direita como era suposto vimos que estávamos enganados e toca de voltar para trás. Pelos vistos não fomos os únicos a perdermo-nos por aqui pois pelo menos mais uma equipa viu esse carro abandonado? Mais alguém?
Com esse engano lá fomos passados por essas equipas e nem os vimos. Lá seguimos até ao ponto 17, a história do costume, faltam 5, 4, 3, 2, 1 km, é já ali, 500 m, é depois da curva, da outra, e lá chegámos. Mais uma paragem para comer e descansar, e mais uma equipa nos apanhou: os Sempre em Festa, que tinham partido primeiro que nós, que também se perderam no carro, mas ainda seguiram mais em frente que nós. Eles seguiram e nós ficámos mais um pouco.
Como estávamos a ficar sem água essa foi a prioridade seguinte. Felizmente havia uma aldeiazinha onde abastecemos numa torneira que lá havia junto a um campo de vacas, e onde todos os que passaram por lá não podem ter deixado de reparar numa vaca que tinha um corno torcido para dentro e que já lhe estava a perfurar a carne mesmo junto ao olho, o que fez alguma impressão a todos.
O ponto de animação a seguir foi passar por debaixo de um grande viaduto da A2. Curiosamente quando regressamos a Lisboa pelo auto-estrada tentámos identificar o viaduto por onde passámos mas não conseguimos, ou por nabice, ou porque é mesmo muito diferente passar de carro por cima a 120, ou andar debaixo calmamente a 5 à hora. São duas perspectivas de vida muito diferentes.
A partir daí o caminho aplanava seguindo ribeiras, e como a disposição até já não estava má de todo, decidimos fazer o CP 18 que era opcional, mas que ficava muito perto do caminho normal, e só tinha uma subidinha de 500 metros. Assim fizermos, e ficámos apenas a 12 kms da chegada. Lá nos fomos arrastando, e a meio para variar parámos 5 min. para descansar. Qual não é o nosso espanto quando surge outra equipa e são de novo os Sempre em Festa que tinham partido primeiro que nós do ponto anterior. Afinal eles não tinham ido ao CP opcional e tinham ficado a descansar debaixo do AE e nós passámos por eles sem os ver! A partir daí seguimos juntos e lá fomos na palheta, com as histórias engraçadas que os Sempre em Festa têm para contar, como o cavalo que comia morangos e deu cabo de uma vedação electrificada que os donos lhe fizeram para ele não comer os morangos do jardim. Soubemos também que eles pertenciam à CGTP (piada do 1 de Maio da véspera) e que portanto só faziam os CPs obrigatórios e nada de opcionais que o sindicato não autorizava. Chamaram-nos capitalistas por fazer os opcionais, mas nesta altura já seríamos mais burgueses pois opcionais quase nada... Ainda gozámos bastante com eles nos últimos dias, pois mais tarde após saltarem uma etapa, começaram com todo o ímpeto a fazer todos os CPs tornando-se uns capitalistas de CPs assumidos :)
De repente aparece-nos um jipe disparado, e quem mais poderia ser que o Alix Guedes da Silva a informar-nos que a chegada tinha sido alterada e era agora cerca de um quilómetro mais perto.
Novo ânimo e lá seguimos por umas bonitas paisagens quase sempre junto a ribeiras, até chegarmos finalmente a São Marcos da Serra. Pelo meio ainda um atalho falhado numa curva do caminho no mapa, que dum lado se ia muito bem, mas do outro era uma ribanceira intransponível com 3metros. Passámos pelo viaduto superior onde estava o Rui Gomes no controlo, e lá fomos a seguir a direcção do Campo de Futebol, que era suposto ser "já ali" mas nunca mais aparecia. Finalmente pelas 18h e qualquer coisa, quase 10h depois de partirmos chegámos ao final da 3ª etapa. Toca a almoçar/lanchar/jantar? com a nossa assistência de parabéns pois preparou-nos umas massas, uns feijões frades e uns ovos cozidos, que souberam que nem ginjas com os enlatados que por lá havia. Já passava das 19h, e o que fazer? Partir já de BTT e aproveitar ainda uma hora de luz, ou ir dormir e descansar um pouco. Olhei para a cara do pessoal e percebi que a disposição para partir de imediato não era a melhor. Mais valia jogar pelo seguro e não arriscar. Toca a dormir até às 21h, para recarregar energias, pois a etapa seguinte eram quase 100 kms e a altimetria até assustava. Brrr...

4ª ETAPA - Orientação em BTT

O Luís lá nos acordou pelas 21h, noite já quase cerrada para partirmos para a 4ª etapa em BTT. O apetite para o petisco não era o melhor mas tinha que ser. Quase 1 hora depois lá saímos bem agasalhados contra o frio.
Foi a nossa etapa mais isolada onde não encontrámos uma única equipa ao longo de todo o percurso. Encontrámos outras aves raras mas isso fica para daqui a pouco.
Sempre que começamos uma etapa nocturna em BTT vamos com toda a calma, por forma a confirmar bem em todos os cruzamentos a saída correcta, para não nos perdermos até entrarmos bem no mapa. Até acabei por nem escolher o trajecto inicial mais curto, mas optou-se por um que seguia mais por estrada e parecia mais certo. Assim foi, ao sair de S. Marcos da Serra, seguimos pela estrada até sairmos por um caminho de terra, que mais à frente tinha uma grande seta a indicar o local da aldeia seguinte. Pensei ok, está tudo bem, temos de atravessar uma ribeira, mas há passagem de certeza com um sinal destes. Puro engano, passagem havia, mas era pelo meio da água, e lá começámos aí com os pés meio molhados.
Fomos seguindo, o caminho subia mas não muito. Às tantas chegámos junto a uma casa, deveriam ser quase 23h onde estavam 2 tipos de volta de um carro. Não ficaram particularmente surpreendidos por nos ver ali àquela hora a andar de BTT vindos do nada e indo para o nada, deram a boca se estaríamos perdidos, e nós lá seguimos.
Chegámos ao primeiro CP19 sem grande dificuldade, no meio de umas casas abandonadas. A partir daí apanhámos a primeira subida da noite, com as BTTs à mão naturalmente até chegar a um caminho que nos levava a uma estrada. Olhámos para o mapa, e esquecemos de imediato o primeiro ponto opcional, e lá seguimos pela estrada durante muitos quilómetros, e felizmente quase sempre a descer, o que não foi mau. Ainda parei para trocar de meias pois tinha os pés molhados. Como a distância era grande não estava a controlar de início onde estávamos pelo mapa. Depois para perceber onde é que já íamos é que era mais complicado, fui tentando controlar pela distância dos ciclómetros, e às tantas quando parámos, havia um cruzamento à direita que tinha uma seta pequenina, e olhando para essa seta concluímos que era a saída da estrada que queríamos. Estávamos com sorte e lá seguimos sem dificuldades para o CP21A. O pessoal já estava a ficar cansado e a querer parar, mas como o 21B parecia perto no mapa disse que descansaríamos lá. Só que para variar as coisas não são tão fáceis como aparentam.
Primeiro tínhamos de atravessar mais uma ribeira, e no mapa o caminho fazia um grande S por dentro da ribeira, mas quando lá chegámos a configuração do caminho não era nada idêntica, e pior do que isso não conseguíamos ver a saída do outro lado pois só se viam canaviais.
Optámos por nos descalçar para depois termos meias secas para calçar para o resto da noite. Claro que para chatear a ribeira estava cheia de pedrinhas irritantes e pontiagudas que nos lixavam os pés. E depois o trajecto inicial que optámos por atravessar, pois não víamos o outro lado, às tantas já estava com água pela cintura, e com tendência para ainda aprofundar, e com a BTT às costas. Voltámos para trás e lá demos finalmente com o caminho do outro lado, que era praticamente a direito de onde tínhamos vindo e não fazia nenhum S, e para além de ser pouco profundo. Depois voltar a calçar do outro lado é sempre uma ginástica interessante no escuro, pois os pés estão molhados e cheios de terra, como os secar e tirar a terra para calçar as meias secas, dá sempre uns exercícios que ficariam bem filmados.
Aí apercebo-me que o Paulo está a cair de sono, pois afinal ele não conseguiu dormir decentemente nas 2 horas de pausa que tínhamos feito em S. Marcos da Serra, teria dormido para aí só 30 min. pois não se quis deitar no saco cama, e com o frio e barulho não adormeceu. E para quem o conhece que sabe que ele dorme em qualquer sítio onde se senta... Obviamente atormentado pelo sono, já estava a dormir ao pé da ribeira, e tivemos mesmo que o forçar a acordar e seguir. Aparece-nos então um estradão, que mais parecia uma pista de aeroporto, e cheio de sinais de trânsito, o que aquela hora da madrugada dava imenso jeito. O CP21B era já ali, mas havia novos caminhos e pontes que não estavam no mapa. Pensava que o ponto estaria junto do caminho, e andámos ali uns bons 20 min. para trás e para a frente, sem perceber muito bem a relação entre os caminhos com o que estava no mapa, e o raio do ponto que não aparecia. Há 3ª vez que para ali andávamos e como o CP parecia estar numa casa, que também lá havia, larguei a bicicleta, e segui quase 100 metros para o pé da casa, pelo meio de uma vegetação que quase dava pela cintura, e lá estava o raio do ponto encostado à casa, e com SI Card. Uma partidazita para quem fazia aquela parte de noite, pois de dia até se devia ver do caminho.
Parámos para descansar e comer, e confirmei no mapa que o pior estava para vir. Subir de onde estávamos até aos 600 m. de altitude.
Avisei o pessoal que se preparasse com o que aí vinha. Subimos primeiro por terra à mão, depois chegámos ao alcatrão, e mais 2 kms a subir com uma inclinação razoável, que dava para ir montado mas a doer. Depois um cruzamento à esquerda, ainda por alcatrão, primeiro plano e a descer um pouco e de novo a subir. Percebia-se bem que estávamos numa encosta da serra de Monchique, e a paisagem permitia ver toda a orla sul plana e cheia de luzinhas. Possivelmente de dia até daria para ver o mar, mas à noite também era giro. E depois o tormento final, sair da estrada e seguir mais 2 kms a pé monte a cima. O cansaço pesava e para aí a meio mais uma pausa de 5 min. para descansar e trocar de pilhas que já fraquejavam. Seguimos e às tantas numa curva do caminho vejo a 100 m um poste de iluminação que quase ofuscava a vista e penso, ok acabou é já ali a estrada. Redobro as energias, mas quando chego ao poste grande decepção, afinal era uma casa, e ainda por cima com cães, pelo que toca de seguir o caminho monte acima ainda mais uns 500m até finalmente nos aparecer a estrada. O pior estava feito. Mais 3 kms a descer e subir mas já em alcatrão e chegávamos ao 3º CP da noite o 22. Vejo dois carros suspeitos parados aquela hora da noite num lugar ermo, e aproximo-me cautelosamente a ver se não estaríamos a incomodar ninguém. E vejo num vidro um cartaz laranja a dizer Raid do Algarve. Ilumino o interior e lá está o Rui Gomes a dormir. Insisto, faço barulho e lá acaba por acordar :) Ainda meio estremunhado toma nota da equipa e lá seguimos nós a descer monte abaixo vertiginosamente, e ele a continuar a dormir.
Chegamos a Monchique ao cruzamento principal às 4h da manhã. Mais uma paragem para comer, e pensar que malucos é que andam às 4h da manhã de BTT pelo meio das serras numa noite de 6ª para sábado quando todo o resto do mundo nas redondezas está a dormir. Para contrariar o meu pensamento, aparece um jipe, com um maluco ainda maior chamado Alix Guedes da Silva, que logo acha que aquele é o lugar ideal para umas verificações técnicas. Todo o material para fora, e quando se chega aos chapéus, eu digo que tenho o capacete, pois no regulamento diz chapéu, boné ou similar. Ora parece-me que um capacete às 4 da manhã é similar a um chapéu, ou boné, ou seja, usa-se na cabeça. O Alix não era bem dessa opinião, mas não teve coragem de nos tirar um CP por causa disso, ainda me emprestou o seu Buff para fazer de chapéu, e disse-me que ficava assim. Ainda bem que não estava lá mais ninguém e portanto ninguém vai saber desta história :) Depois à Alix lá nos disse que agora até Aljezur era sempre a descer e numa hora estávamos lá. Duvidei um pouco ao olhar para o mapa, numa zona que dizia Espinhaço de Cão, que nos meus tempos de 4ª classe era uma serra, mas pronto lá seguiu ele monte a cima de jipe para reacordar o Rui Gomes, e nós para baixo em direcção a Aljezur.
Falta dizer que todo o tempo que tivemos parados estávamos mesmo em frente de uma singela plaquinha que nos dizia Foia a 8 kms. Ainda olhei várias vezes para o mapa, pois o caminho era sempre alcatroado, mas sempre subia dos 400 aos 900m e vi que o pessoal estava com a resistência em baixo, o Paulo a dormir em pé, e que embora até pudéssemos conseguir, a factura a pagar mais tarde poderia ser elevada, e Aljezur ainda estava longe.
Esquecemos portanto os 3 opcionais que se seguiam e apontámos agulhas para Aljezur. A parte inicial foi óptima: alcatrão sempre a descer, e nós sempre a abrir. Voltámos no cruzamento que indicava estarmos "só" a 33 kms e lá fomos descendo. Mas claro que tudo o que é bom acaba, e como não há nenhuma estrada que desça 33 kms seguidos, claro que começou a aplanar e por vezes a subir ligeiramente. E mais uma luta psicológica: já tudo zombie, a pedalar numa estrada recta durante minutos que pareciam horas, e os kms que não passavam. Num cruzamento uma placa para trás indicava Monchique a 8 kms, quando nos parecia que já tínhamos andado uns 20... Pedalar, pedalar, por vezes a descer, quase sempre plano e a subir de vez em quando sempre em alcatrão. Cada um inventava as poses mais estranhas para descansar o traseiro já mais que amassado e o ritmo não era dos melhores, pois pode-se dizer que o percurso era uma granda seca. Chegámos a Marmelete, nome engraçado às 5h da manhã. Não sei porquê ninguém nos veio receber e saudar a nossa passagem, e mais uma pausa para descanso psicológico. Faltavam só 17 kms para Aljezur...
Mais pedaladas, e o percurso naturalmente começa com ligeiras subidas e descidas e penso na frase do Alix que era sempre a descer (eu quando vou de carro também me parece o mesmo). Uma ou duas vezes parece que alguém adormece na bicicleta, e vai disparado em direcção à borda da estrada, mas um berro a tempo, faz com que se endireite e volte ao caminho, mas que assusta quem vai atrás, assusta! Mais kms, e de repente a estrada enche-se de buracos. Percebo rapidamente que saímos do concelho de Monchique e entrámos no de Aljezur, pois na nossa terrinha a mesmíssima estrada num concelho pode estar em boas condições e quando se passa para o concelho vizinho uma lástima, o que era o caso. Então para os traseiros doridos aqueles buracos obrigavam a novas ginásticas. Por outro lado dois factores ficaram a nosso favor: como era de esperar o dia começou a clarear e portanto começámos a ter visibilidade, e por outro o caminho começou a descer de vez até Aljezur. Passámos ao lado e vejo que ainda nem entrámos em Aljezur e já estamos a sair em direcção a norte. Confirmo no mapa com receio que a chegada esteja mal marcada como tinha acontecido em S. Marcos, mas não, estava tudo bem e a chegada era mesmo afastada de Aljezur. Eram cerca das 6h da manhã quando finalmente chegámos, e vencida a difícil 4ª etapa fazendo apenas os pontos obrigatórios, mas mantendo-nos em prova e ainda em condições mínimas para continuar. Nem comemos quase nada ao chegar tal era o cansaço e toca a dormir de imediato. Isto é que é vida! Pedalar 12h, dormir 2, andar 10h, dormir 2, pedalar 11, dormir... Pela altimetria o pior já tinha passado, mas o dia de sábado ainda ia ser duro. Como foi fácil adormecer...

5ª ETAPA - Orientação Pedestre

 

Para quem se deita às 6h30 da manhã, acordar pelas 8h30 é sempre animador. Olho à volta no pavilhão e não está praticamente mais ninguém, com excepção da assistência da equipa Portuguese Spirit/Not So Easy que ainda nem sequer tinha chegado. Saio para fora e vejo montes de equipas. O que é que se passa para estar tanta gente cá fora? Abro melhor os olhos de sono, e o cérebro em ritmo lento, lá descobre que estas equipas são diferentes, e trata-se afinal do pessoal do mini-raid cheio de energia para começar a sua prova, e que nos olhavam com um misto de respeito e de ironia por nos ver naquele estado tão pouco "apresentável" enquanto eles estavam frescos que nem uma alface. Falei com algum pessoal conhecido de outras equipas que nos desejaram boa sorte, e após o pequeno almoço, lá partimos para a 5ª etapa pedestre, enquanto em fundo o Jorge fazia o briefing inicial para o pessoal do mini raid.
A nossa partida foi logo anedótica. O cameramen filmava a nossa saída, e eu a sair vejo uma estrada e sem olhar bem para o mapa sigo por ela. Mas levanto a cabeça, e lembro-me da madrugada anterior que tínhamos vindo pela estrada principal que ficava ao lado e ia ter a Aljezur, e novamente sem olhar para o mapa, digo para apanharmos essa estrada até Aljezur. O cameramen lá foi a correr à nossa frente para filmar a nossa ida. Chegamos à estrada e olho pela primeira vez a sério para o mapa, e descubro que afinal o melhor caminho sempre era o inicial por onde tinha ido por instinto, e lá voltámos nós outra vez para trás, com o camaramen a olhar para nós a não perceber nada... Para ajudar à festa partiram mais ou menos na mesma altura as equipas da Escola de Aventura e os campeões da Prisma (depois de terem feito todos os pontos da BTT e portanto ainda só ali estavam) e enquanto eles estavam parados no cruzamento, nós andávamos feitos barata tonta para trás e para a frente. Lá nos decidimos todos pelo caminho certo e seguimos em direcção a Aljezur, não sem antes nos enganarmos e passarmos uma linha de água sobre umas pedras, que levava a um caminho errado, quando a 20 m à frente estava uma ponte decente.
Subimos à simpática vila de Aljezur e descemos pelo outro lado junto a um vale de cultivo, as 3 equipas em amena cavaqueira, e algumas picardias entre os nossos jovens Paulo e Marco, e o Tiago da Escola de Aventura que já se conhecem à muito tempo doutras orientações.
De repente passam 3 tipos por nós de BTT e percebemos que são equipas do mini-raid que têm o mesmo percurso, e toda a gente começa a dizer que lhe vamos roubar as bicicletas para irmos mais depressa :) Claro que logo a seguir o caminho empinava para o 1º CP, e enquanto eles nos passaram a abrir em plano, nós voltámos a apanhá-los a meio da íngreme subida, pois eles tinham que alancar com as BTTs, e ainda por cima uma equipa teve azar e acabou aí por partir uma corrente e só nos voltou a ultrapassar 1h depois. Passado o ponto a subida acabava numa estrada. Aí o João já se estava a ressentir da forma e das costas, e a Prisma seguiu com a Escola de Aventura enquanto nós ficámos mais para trás. Lá fomos seguindo ao nosso ritmo mais lento, e esse foi dos troços mais desagradáveis, pois a estrada tinha muito movimento automobilístico. Passados uns kms, lá entrámos num caminho mais calmo, e seguimos numa zona praticamente plana, e já com o cheiro do mar por perto. A partir de uma certa altura o caminho do mapa não coincidia muito com o percurso mas como não havia grandes alternativas seguimos e lá acabámos por ir ter ao 2º CP numa casa abandonada, não sem antes termos visto mais uns BTTistas meio desorientados, a percorrerem cada um dos caminhos do cruzamento, o que para mim foi uma nova técnica de orientação...
Nessa altura sempre que eu parava 10 seg. para ver o mapa já toda a gente da minha equipa queria parar para descansar, mas como o objectivo era tentar estar às 18h em Vila do Bispo, tínhamos de manter um ritmo constante e não dava sempre para estar a parar, pelo que combinei que pararíamos no próximo CP para "almoçar" e descansar. Curiosamente neste 3º dia, o Marco que tinha passado as passas do Algarve no dia anterior demonstrava uma boa capacidade física, o João mantinha os seus problemas com as costas e a garganta, e o Paulo começou a fraquejar com dores nas canelas. Fomos andando com o habitual contar dos kms em falta até ao CP, entusiasmei-me tanto que até me enganei no sítio onde estávamos e na contagem, e quando tinha dito que devia faltar menos de 1 km, aparece o marco geodésico ao fundo, onde estava o CP, ainda para aí a mais de 2 kms. Não sei se o pessoal percebeu mas lá seguimos por caminho de areia nada aconselhável para quem está cansado, e por essa altura estavam a Prisma e a Escola de Aventura a sair do CP, pelo que nós mesmo a um ritmo não muito rápido não estávamos a perder muito terreno. Chegámos, lá fomos todos ao marco geodésico ver a paisagem e usar o SICard (obrigado organização :) e parar para descansar e comer, com o mar quase em fundo.
O ritmo não estava para opcionais, mas como o opcional seguinte ficava mesmo ao pé do CP obrigatório não tivemos outra hipótese senão lá ir. O caminho não era muito variado, ainda passámos por uma casa a pedir água, mas não tinham, e antes de chegarmos ao alcatrão, encontramos a equipa do CP Armada, nossos companheiros da 2ª etapa, mas em que um dos elementos teve azar com o joelho, o que os obrigou a saltar etapas, e lá iam de carro para começar a 6ª etapa. Pararam, saudaram-nos, deram-nos ânimo, e um pouco de água, antes de seguirem. Fomos pelo alcatrão até à Carrapateira a levar com o sol da tarde, e a desviar-nos dos carros que passavam a abrir. Na Carrapateira abastecemos os CamelBacks de água, demos com um inglês com uma carripana toda original, e o Paulo começou a ressentir-se cada vez mais das canelas. Fui novamente obrigado a pôr o pessoal a andar pois já queriam parar novamente para descansar, e seguimos até à praia do Amado, com várias tabuletas a indicarem a escola de Surf, que era o que nos esperava no ponto opcional. O Paulo lá se foi a arrastar até lá, e quando chegámos à praia já dizia que não aguentava mais, e não queria pôr em risco a sua integridade física. Como íamos ter uma actividade pedi-lhe que esperasse para ver se passava ou não. Depois por azar entrámos na praia principal que estava cheia de gente, mas sinal da organização zero. Ainda andámos um pouco por lá, com toda a gente a olhar para nós, mas lá percebemos que estávamos no sítio errado, e que a organização estava numa zona mais protegida do outro lado da praia, por onde tínhamos chegado e ignorado. Estavam lá a equipa da Prisma a fazer a sua prova, e a Escola de Aventura e nós éramos a seguir. A Prisma limpou aquilo a brincar, a Escola de Aventura de início com alguma dificuldade mas depois lá fez também. Chegou a nossa vez e fui eu e o Paulo fazer, pois o João como estava não convinha andar em água fria, e o Marco para nadar não é bem com ele. Costumo safar-me bem dentro de água a nadar e não tenho medo das ondas, mas nunca tinha andado numa prancha. A experiência não foi a melhor pois nem em cima da prancha me consegui meter decentemente. Uma vergonha! O Paulo também ainda tentou mas não teve muito melhor sorte, a corrente arrastáva-nos demasiado para sul, e ao fim de algumas tentativas lá desistimos pois não valia a pena estar-nos para ali a cansar sem nenhum proveito. O CP opcional lá ficou ao largo na bóia, sem ter o prazer da nossa visita. Após uma sessão de strip lá seguimos em direcção ao CP seguinte a 1 km no alto do monte vizinho. Ainda ajudámos o elemento feminino da Escola de Aventura que estava também com problemas nos tornozelos e queria pôr uma ligadura elástica, e lá atravessámos a praia tipo marcianos na hora de ponta na baixa pombalina. Chegámos ao 4º CP e último obrigatório, e mais uma mini pausa para descansar. O Paulo deixou de se queixar das canelas e portanto ainda havia esperança de chegarmos ao fim. Entretanto passa-nos a equipa espanhola, que tinha partido depois de nós, e que nem deve ter ido ao Surf, onde acabámos por perder quase 2h para nada. Já só faltavam 12 kms para Vila do Bispo, descemos até à praia seguinte, e mais uma subida monte a cima em direcção à estrada. Num caminho vimos um carro ligeiro a descer pelo meio de um troço cheio de valas, mas à última ganhou juízo, e conseguiu fazer marcha atrás, sob risco de já não sair de lá. O resto não tem muita história, andar, andar, andar, ver uns moinhos de vento ao longe, que uma hora depois estavam muito mais perto de nós! Mais uma pausa antes de chegar à estrada 4kms antes da chegada, e uma recta que nunca mais acabava até à meta. Ainda deu para ver umas vacas que ao lado do campo de futebol lá seguiam sozinhas o seu caminho de todos os dias de volta ao sítio onde pernoitavam, passámos por um restaurante que emanava um cheiro delicioso, mas a nossa assistência estava já ali a 200m. Eram quase 20h, e mais uma etapa estava vencida e o fim do Raid aproximava-se. Após um jantar pseudo-retemperador tudo deitado no saco cama a dormir ao relento durante mais 2 horas até à etapa seguinte. Onde é que eu já vi isto?

6ª ETAPA - Orientação em BTT

22h da noite. Acabados de sair dos saco-cama, já bem húmidos, por estarmos a dormir no meio da relva na praça onde era a assistência, preparamos a nossa partida para a 6ª etapa em BTT. No meio da confusão falta um dorsal. Tudo à procura do dorsal mas nada de aparecer. Eu garanto que o tirei e deixei junto ao local onde chegámos mas o facto é que não aparece. Um quarto de hora nisto com o Luís à procura em toda a carrinha do dorsal invisível, mas nada. De repente, o meu cérebro em câmara lenta leva-me a olha para o que tenho vestido: o meu dorsal, por debaixo o polar para o frio da noite, e por debaixo do polar outro dorsal... O mistério estava resolvido! Era eu que o tinha vestido o tempo todo. Mais uma barraca, mas pelo menos tinha aparecido e estávamos prontos para partir. Tudo a experimentar o traseiro no selim da BTT mas pelos vistos ainda dava para andar.
Lá fomos nas calmas. O ponto 32 do rappel já tinha fechado à muito tempo e portanto nem nos preocupámos com ele. Começámos logo com 2 mini-enganos. Não entrámos na 125 porque pensava que havia outra estrada, e depois já na 125 não saímos logo na Raposeira pois havia um caminho mais à frente, mas isso era antes de terem vedado aquela zona da nacional, pelo que lá voltámos para a Raposeira. Deixámos as luzes da localidade e embrenhámo-nos na escuridão caminho a cima. Muitas casas novas que não havia no mapa, mas lá fomos seguindo a direcção até que o caminho aplanou. Não devíamos estar mal, e o ponto estava mais à frente num caminho à direita que fazia uma espécie de triângulo com o sítio onde estávamos. Surge o caminho à direita e virámos. Só que quando chegámos ao vértice do triângulo, no outro cruzamento a baliza não constava. Fico um pouco preocupado, e decido seguir para trás pela nova aresta do triângulo. Assim fazemos e por sorte vem uma equipa na direcção contrária, que por acaso era só a Prisma, que tinha ido ao rappel, e pelos vistos jantara por Vila do Bispo, e confirma que o ponto é já ali. Chegamos ao cruzamento anterior mas o CP também não estava... Confirmo pelo mapa, e afinal o ponto que parecia estar no cruzamento estava desviado mais para dentro junto a um pequeno lago. Havia um caminho até lá, seguimos e lá apareceu a baliza. Do lago não conseguimos ver nada mas lá que se ouvia rãs a coaxar, ouvia!
O 33A não tinha sido fácil e ainda tínhamos de fazer o 33B que nem parecia difícil. Puro engano novamente. Havia montes de caminhos novos que eram parecidos com o que estava no mapa mas não muito. Fomos seguindo quase por intuição, e às tantas passámos pela Prisma que estava parada também com dúvidas como nós. Fomos à frente deles, e de repente o caminho por onde seguíamos cruzava com outro, quando deveria seguir em frente o que não acontecia. Meio baralhados, optámos pela direita, mas começou a descer o que não podia ser. Voltámos para trás, e lá mais à frente lá estava o caminho que "seguia em frente" do anterior, e por aí seguimos, e umas curvas depois lá chegámos ao 33B numa casa, tendo o prazer de ver a Prisma a chegar atrás de nós logo a seguir (não acreditam ?:)
O 1º CP da noite estava feito com algum trabalho. Olho para o mapa e vejo que o 34 opcional fica mais ou menos a caminho, mas as opções são manhosas. Decidimos arriscar e ir lá, mas optando por uma opção segura: apanhar a estrada alcatroada, e depois daí abordar o CP que ficava a 1,5 km. Na saída do CP fomos por um caminho errado que acabou por desaparecer, e como é claro a Prisma apanhou o caminho certo e ficámos de novo sozinhos na noite. Voltámos atrás para apanhar a opção correcta. O que no mapa parecia fácil que era apanhar a estrada revelou-se mais uma dor de cabeça. Cruzamentos que não vinham no mapa, estradões bons que de repente quase que desapareciam, e muito instinto a escolher a direcção, lá nos fizeram seguir e andar por sítios que embora não muito identificáveis com o mapa, lá nos fizeram chegar a um dos vales que tinha ligação à estrada alcatroada onde finalmente chegámos. O mais difícil já estava. Seguimos 3 kms por alcatrão, apanhámos a saída correcta e após uma subidazita chegámos a um cruzamento, onde apanhámos de novo a Prisma que tinha acabado de picar o CP e outra equipa que se queixava de ter andado uma hora para descobrir o ponto. Afinal de contas a nossa opção até não tinha sido má de todo. Andei 50 m para baixo e lá estava o CP junto a um poço num parque de merendas, com bancos e tudo, o que dava para um óptimo repasto, e ceia pós meia-noite. O resto da minha equipa não veio ao ponto pois ficou no outro cruzamento onde tínhamos encontrado as outras 2 equipas. É então que me dá um momento de birra (também tenho direito, não é?) e fico ali junto ao CP a comer à espera que eles venham o que não acontece. Claro que eles também estavam à minha espera, e lá acabam por aparecer, discutimos um pouco sobre não estarmos juntos e afins, mas como o lugar tinha bancos para descansar um pouco as coisas acalmaram. Nova jornada a preparar, e como já tínhamos decidido que não íamos ao slide, pois deixámos na assistência os baudriers, seguimos para o CP 36 cuja opção era quase sempre por estrada, passando inclusive por debaixo do novo troço da Via do Infante e por algumas aldeolas, o que dava para animar, e até ainda vimos gente acordada na rua, o que na etapa da noite anterior de BTT em Monchique não aconteceu. Acabámos por passar de novo pela Prisma que estava parada a descansar, e nunca mais os vimos pois entretanto foram fazer o slide. Depois de alguns cruzamentos o alcatrão acabou, e estávamos a pouco mais de 1km do CP, com uma subidita até aos 100 m que até acabou por ser mais fácil do que estava à espera, embora algumas partes fossem feitas à mão pois tinham muitos calhaus, e até deu para o Paulo ter uma daquelas quedas absurdas parado ao desmontar da bicicleta. Nós ainda gozámos, mas aquilo ficou-lhe a doer e não achou graça à brincadeira, mas lá seguimos até ao CP, onde para variar abancámos de novo a reabastecer energias. Estávamos no ponto mais alto do Raid até ao final da prova a 100m. de altura pois daí para frente era só a diminuir até ao mar. Para quem esteve nos 600m estávamos por baixo :) E de repente surge mais uma equipa, e quem era senão os nossos amigos do Sempre em Festa que já estavam na sua fase capitalista de fazer os pontos todos (quem não perceber a piada vá reler a 3ª etapa). E tal como nessa etapa nós ficámos e eles seguiram. Por acaso até fomos mauzinhos pois eles optaram por seguir pelo caminho por onde tinham vindo, quando a melhor opção na minha opinião fosse o outro caminho. Mas eles discutiram com tanto afinco se iam por um lado ou por outro que achámos melhor não nos meter. Pouco depois partimos pela nossa opção, sempre a descer a abrir pelo meio dos calhaus, e voltámos de novo ao alcatrão, passámos por debaixo da Via do Infante novamente, e retomámos a N125 já em direcção a Lagos. Só faltava o CP 37 que também já não estava longe. Antes de Odiáxere apanhámos um caminho à esquerda, e nessa escolha do caminho fomos reapanhados pelos Sempre em Festa pelo que a nossa opção anterior deve ter sido melhor. Seguimos pela estrada secundária, até apanharmos um estradão à direita. E parecia favas contadas com uma ligeira subida até aos 60 m. (ufa, que ganda subida) quando mais uma vez a realidade vem demonstrar que o que parece fácil torna-se difícil. Pelo mapa seguimos um caminho que passava ao lado de uma casa, e pouco depois ia dar ao CP. Só que quando chegámos à Casa o caminho acabava (ou não se via no meio das ervas), e demos de cara com uns cães acorrentados. Lá os evitámos e tentámos seguir por onde devia ser o caminho no meio das ervas e arbustos, vendo umas casas lá em cima perto de onde estava o CP. Seguimos para cima na filosofia que o ponto estava no cimo do monte, e depois de estar um pouco preocupado por andarmos a corta mato para o último CP de BTT, aparece-nos à frente um grande caminho de óptima qualidade, que no mapa aparecia marcado a tracejado, mas que foi melhorado entretanto. Claro que isso nada importou e 500m depois lá estava o último CP da noite. Mais tarde soubemos que os Sempre em Festa que entretanto tinham ficado para trás também passaram pela mesma casa, só que dessa vez o dono farto que tipos estranhos decidissem passar por ali às 4h da manhã assustou-se e deu um tiro de caçadeira para o ar. Felizmente não houve nenhum problema, mas temos todos de ter consciência onde nos metemos quando andamos às tantas da manhã junto ao quintal de casas isoladas...
Daí até ao final foi apanhar o alcatrão e descer, descer até à meia praia e depois sempre a abrir até Lagos, vendo toda a cidade iluminada à beira-mar para nos receber. O mais difícil estava feito, e o Raid já não era uma miragem. Um banho quase frio para retemperar as energias às 5h da manhã, e toca a dormir até às 8h. Pelo meio alguém disse que o Benfica tinha perdido com o Sporting, mas nem quis acreditar, e afinal o que interessa essas coisas depois de 3 dias sempre em movimento atravessando o Algarve de uma ponta a outra. Tudo na vida é relativo!

7ª ETAPA - Canoagem

Domingo de manhã. Última etapa em canoagem. Mais uma vez o nosso ponto mais fraco, mas desta vez fazíamos só o que queríamos e sem pressão. Estávamos em 5º com um CP de atraso dos espanhóis que eram melhores que nós, e tínhamos atrás o Portuguese Spirit/Not So Easy com muitos CPs de atraso e que só queriam era dormir e não fazer-nos pressão. O Jorge deu-nos o mapa como a todas as equipas, e vimos logo que o CP do mergulho era para esquecer pois ninguém estava para remar 28 kms, e decidimos fazer só o obrigatório e o 1º opcional que ficava só a 1 km do obrigatório. Um pouco de stress para dar com o lugar da partida, pois partimos só com 10 min. de antecedência, e ainda nos perdemos num cruzamento, mas afinal ainda passámos por várias equipas e até fomos dos primeiros a chegar ao local, até que acabaram por atrasar um pouco a partida. O pessoal olha para o mar e vê que há umas ondinhas interessantes... Eu já tinha alguma experiência prévia de entrar em mar e a coisa não me preocupa muito, mas adivinhei que não ia ser fácil para alguns. Preparados o caiaque, coletes e afins, vou com o Marco ele à frente e eu atrás, e dou-lhe a táctica: não custa nada é só manter o barco perpendicular às ondas e remar sempre remar até passar a rebentação, pois o barco é estável e não se vira. O Marco com a sua inconsciência natural disse que sim, e quando deram a partida lá fomos. O Marco entra no caiaque à frente, e eu fico de fora a segurá-lo nas primeiras ondas até ter o momento oportuno para entrar. Lembro-me de ver já mais à frente os Serralheiros a passarem a ondulação fora do caiaque, e a pensar como é que depois eles iam conseguir entrar lá dentro. Numa pausa das ondas entro no caiaque, e toca de remar. O Luís na assistência diz que na altura em que entrámos apanhámos com um set de ondas valentes. Só sei que na primeira onda a sério que veio, eu gritava para o Marco remar com toda a força, e ele ficou completamente bloqueado a olhar para a onda a rebentar-lhe em cima e remar nada. Foi a adrenalina no seu extremo. Eu a remar feito louco, e a berrar para o Marco para ele também remar pois as ondas sucediam-se a um ritmo impressionante. Na segunda onda o Marco voltou a bloquear, e eu vejo perfeitamente o Marco aos trambolhões à minha frente, e penso que vai cair do caiaque. No entanto com um equilíbrio (sorte?) grande conseguiu manter-se no caiaque, e o susto deve ter-lhe feito bem (para além dos meus berros aos seus ouvidos para remar) e lá começou a remar decentemente e nas 3 ondas a seguir já remámos a sério e lá se conseguiu passar a ondulação. Foi dos momentos mais intensos e motivantes do raid aquela luta entre as embarcações e a força das ondas e o conseguir chegar ao outro lado. Quando passámos vejo que só ainda mais 2 ou três o conseguiram, e não se consegue perceber mais nada para trás. Como nós remamos não muito rápido achei que o melhor foi ir andando. O mar estava agradável mas com uma ligeira ondulação que dava para subir e descer à medida que progredíamos. Aposto que se alguém enjoasse no mar não ia achar muita piada. Quanto ao resto das equipas via tudo muito separado, uns iam à nossa esquerda quase rentes à praia, outros iam umas centenas de metros à nossa direita, possivelmente rumo ao mergulho, dos nossos outros 2 colegas não os víamos mas esperámos que estivessem bem e perto e fomos remando nas calmas. Quando nos aproximamos do local do ponto vemos 2 pontões na costa. Olho para o mapa e não estão assinalados em lado nenhum. Onde estará o CP? Faço pontaria ao pontão da esquerda estimando que o ponto aí possa estar. Quando nos aproximamos vem um barco patrulha da capitania ou dos bombeiros perguntar-nos para onde íamos, onde ia ser o mergulho, e a reclamar da organização que não tinha barco no mar e não lhes dizia nada. Disse-lhe que éramos só participantes, vi no mapa onde era o ponto do mergulho e disse-lhes mas que não os podia ajudar mais. Seguimos e já perto do pontão, vejo que a coisa encarnada que parecia o CP era uma bóia de marcação vermelha de um lado e verde no outro pontão, e que afinal o CP está na praia ao lado do pontão. Percebo que o pontão está metido na entrada da zona interna para protecção da violência do mar, e vamos para a praia picar o ponto. Digo ao Marco que agora vamos surfar para sair, e que é só remar para manter o caiaque direito, que as ondas nos levam até terra e assim foi. Fomos dos primeiros a marcar esse ponto, o que para caiaque para nós é um feito, e encontrámos a Ana Vilar que estava de guarda a esse ponto.
O Marco estava com medo de voltar a passar a ondulação, ainda com o trauma recente, mas as ondinhas ali era muito mais pequenas, e a saída foi muito mais simples, também porque ele remou como deve de ser desta vez. Assim que passamos a ondulação damos de caras com o Paulo e o João que tinham vindo atrás de nós, e lá nos metemos pelo meio dos pontões rumo ao CP 39 opcional. Aquilo impressionava um pouco pois a ondulação ali era mais pronunciada e um pouco mais cavada, mas seguimos sempre no meio entre os 2 pontões e chegámos a águas calminhas tipo lago, e como a maré estava baixa rapidamente encalhámos em terra seca. Ainda fomos um pouco com o caiaque pela areia passámos pelo outro lado e seguimos mais 50 m. de caiaque até que voltámos a ficar em areia, e fui marcar o CP por terra lembrando a prova do Oeste da etapa de canoagem sem água :)
Não sei se foi por ser a última etapa do raid, se foi pela adrenalina da entrada, ou por a água ali estar tão calma em compensação com o mar, mas o que normalmente é um martírio (a canoagem) até estava a ser muito agradável e deu-me um vaipe de ir também fazer o outro ponto opcional do tiro com arco, que não estava nos nossos planos, mas que afinal era só a 2 kms, na outra margem no Alvor. Toda a gente estava com o mesmo estado de espírito e concordou e seguimos nessa direcção. Mais uma vez fomos enganados por uma bola vermelha num barco que à distância parecia uma baliza. O Marco ia de boca aberta no meio de todos aqueles barcos lá ancorados e só dizia que quando fosse grande queria ter um barco daqueles. No tiro com arco encontramo-nos novamente com a equipa da Escola de Aventura nossos companheiros na 5ª etapa, e aquilo era muito fácil, o Marco nunca tinha feito e quis experimentar e logo nas primeiras flechas ia fazendo os 25 pontos. Olhando para trás foi a única actividade que fizemos com sucesso. Tínhamos tentado o surf mas correu mal, e a nenhuma das outras actividades chegámos a ir, o que deve fazer um pouco pensar para a organização de um próximo Raid. Despedimo-nos do Jorge e da Nonó e fomos nas calmas de volta para Lagos. Ainda estava com algum receio de apanharmos corrente contra na saída do pontão, mas se havia não demos por ela e saída não foi nada difícil. Mais 6 kms até à chegada. O cansaço nos braços começava a fazer-se sentir, mas cada pagaiada nos aproximava lentamente da praia, que como sempre no caiaque demorava imenso tempo a crescer, a partir do momento em que se via. Lá fui apertando pelo Marco, e chegámos ao último momento de surf nas ondas. Ele não estava muito convencido, mas quando a onda nos apanhou remámos como deve de ser e conseguimos sair sem ir ao banho, o que nem todos se podem gabar :)
A grande aventura chegava ao fim, e tínhamos conseguido. Tal como eu previa antes de começar, e tinha partilhado com a minha equipa, o mais difícil no Raid não é tanto a parte física desde que se tenha uma forma mínima, mas é mais a parte psicológica de vencer o cansaço, o sono acumulado, e ganhar motivação para continuar quando só nos apetece parar. Para mim, cada quilómetro demorava imenso a passar, quer fosse de caiaque, a pé ou do BTT, mas no final dos 4 dias os 400 kms passaram num instante e parecia que tinha sido ontem que tínhamos começado em Castro Marim. Como o tempo é mesmo relativo!
Filosofias à parte alcançámos o nosso objectivo, fazendo as etapas todas e ficando em 5º lugar, com todos os CPs obrigatórios, e 9 opcionais (4 canoagem, 4 BTT e 1 pedestre) num total de 29 CPs, com 71h30m de prova a apenas 2 min. da equipa espanhola 4ª classificada. 2 min. em 71h não é nada, mas acho que é merecido para eles pois nem sequer tinham assistência como nós e deram também sempre o litro.

Almoço e Entrega de Prémios

O resto da história é fácil: um banho, mais dormida, arrumar a carrinha, ir para o almoço às 18h mas que valeu a pena, e assistir à entrega dos prémios, foi só pena o representante da FPO que arranjaram... A Prisma foi um justíssimo vencedor e são mesmo os melhores hoje em dia. No futuro veremos... A Sportzone teve uma prova muito forte e tiveram um merecido 2º lugar. Sobre o Clube BCP acho que estavam ao nosso nível, e em futuras competições poderemos aspirar a este lugar. Dos espanhóis já falei, e parabéns também ao Portuguese Spirit/Not So Easy, por terem feito todas as etapas, com muita persistência, e quase sempre a queimar e sem dormir o que é muito duro. Prémio do azar para o CP Armada e para o CLAC/NEL que tinham equipas muito fortes mas que foram atraiçoados pelo empenhamento que puseram na prova e por terem esforçado bastante, o que os levou a quebrar. Fica para a próxima e com certeza já na Serra da Estrela se vão vingar e ficar à nossa frente :)
Quanto às outras equipas muito bom esforço e todas deram o seu máximo. Acompanhámos mais de perto os Sempre em Festa e a Escola de Aventura com quem nos fomos cruzando. Do EcoTeam vimo-los uma vez quando íamos a partir para a 3ª etapa e vinham eles a chegar da 2ª após dormirem ao relento, e soubemos que foram dormir noutra noite para um hotel... Os Salmões e o CCA Sintra ainda nos cruzámos uma vez ou duas. Quanto ao Team Ronal e ao Dream Team acabámos por não nos cruzar em prova, pelo menos que me lembre, com excepção do Dream Team já na chegada de canoagem no domingo.
Acabado o jantar, ainda me deram o privilégio de levar a carrinha do Algarve até Lisboa o que consegui fazer sem adormecer. Depois de largar cada um em seu sítio, estava de volta a casa e aos meus lençóis à meia noite de domingo. Dormi, mas não foi um sonho, o Raid tinha sido mesmo uma realidade!

Para quem teve a paciência de ler tudo até aqui espero que tenha gostado. A minha ideia era mandar um único mail com a descrição, mas quando comecei a pôr as coisas no computador vi que tinha muito mais para escrever e contar do que inicialmente tinha pensado. Espero daqui a 10 anos quando reler o que escrevi voltar a sentir as mesmas emoções vividas nestes óptimos 4 dias. O meu agradecimento a toda a minha equipa, o João, o Paulo, o Marco e claro o assistente Luís, a toda a organização do UTL Aventura que tornou isto possível, o Luís Sérgio, o Jorge, o Alix, a São, a Ana, a Filipa, a Alice, o Rui Gomes, o Vítor, a Nonó e a Lecas :), a todas as equipas que connosco participaram nesta aventura, e a todas as outras pessoas e entidades que colaboraram, apoiaram e tornaram isto possível.
Deixo aqui a minha última provocação: não sei se nos tempos mais próximos alguma entidade terá condições para organizar um raid assim, sem ser a equipa do UTL Aventura. Eu sei que eles não o pretendem fazer e querem que outros o façam pois logicamente já tiveram a sua carga de trabalhos. Mas uma coisa é querer e outra é fazer. Espero que esteja enganado, e que para o ano surja outra organização tão boa ou melhor que esta para o 2º Raid do Alentejo, das Beiras, de Trás os Montes, ou de onde quer que seja. Mas se tal não acontecer talvez daqui a uns anos o pessoal da UTL Aventura reconsidere e nos brinde com mais um Raid. Força a todos nas Corridas de Aventura!

P.S. - esta história é baseada em factos verídicos, embora alguns dados, locais, horas, nomes possam estar baralhados na minha cabeça, e portanto sujeitos a algumas incorrecções, e muito provavelmente a vários esquecimentos. Espero que ninguém leve a mal :)

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