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Raid do Algarve – as minhas aventuras e da equipa Megamedia
A nossa equipa era formada por 2 juniores, o Paulo
já com alguma experiência nestas andanças, e
o Marco que não sabia muito bem no que se estava a meter,
e pelo João Pina experiente BTTista, para além do
Luís Borges imprescindível na assistência.
O nosso objectivo era ficar entre o 3º e 5º lugar, com
base nos resultados que obtivemos este ano nas provas do PEA. A
estratégia era tentar fazer o máximo de CP's possíveis,
e dosear bem o esforço, porque nunca teríamos pedalada
para dar luta aos primeiros, mas conseguiríamos manter um
ritmo constante forte.
1ª ETAPA - Canoagem
A prova começava logo com a modalidade
em que éramos mais fracos, a canoagem. Estimámos demorar
6 horas para fazer os 32 kms, e lá fomos pagaindo. Para chegar
ao CP2 o pontão nunca mais acabava e parecia sempre que ainda
faltava o mesmo. Depois de lá chegarmos e voltarmos para
trás vimos que afinal ainda havia equipas atrás de
nós a caminho desse CP, o que sempre deu para melhorar o
ânimo.
A seguir seguiu-se o tormento da ponte que liga
a Via do Infante a Espanha. Horas a remar e nunca mais conseguíamos
passar o raio da ponte. Mais um pouco de sofrimento. Por essa altura
apercebi-me que o nosso mapa plastificado tinha deixado entrar água,
e do ponto 3 só havia uma mancha. Lembrava-me que era na
margem direita do rio mas o local exacto já era irreconhecível.
Lá conseguimos passar a ponte, e com a corrente a favor que
se começava a fazer sentir, deu para chegar ao CP3 onde felizmente
estavam outras equipas paradas, o que tornou fácil reconhecer
o sítio. Paramos para "almoçar" e curiosamente
achámos um mapa da prova no chão em óptimas
condições que outra equipa deve ter perdido. Ninguém
se acusa? :)
Lá seguimos e com as curvas do Guadiana,
a bonita paisagem, e a corrente a favor, a etapa até acabou
por não ser tão difícil quanto contávamos,
e chegámos com 5h e pouco, melhor que a nossa estimativa.
Claro que nessa altura já várias equipas tinham partido
para o BTT, mas agora é que a nossa prova ia começar...
2ª ETAPA - Orientação em BTT
Após uma assistência onde os 5 elementos
ainda não estavam muito habituados a estas transições,
lá partimos para o BTT com vontade de ir a todos os pontos.
Fizemos uma boa opção para o CP5 indo paralelos à
ribeira e não subindo pela estrada, mas acabamos por passar
pelo ponto que não se via bem do caminho, e tivemos de voltar
500 metros para trás. A partir daí começaram
as primeiras subidas do dia ainda em alcatrão de Odeleite
até aos pontos 6A e 6B, onde o calor apertava fortemente.
Tivemos a companhia de mais uma ou duas equipas, mas que foram ficando
para trás nas subidas. Para chegar ao ponto 6B um single
trek cheio de calhaus veio dar alguma emoção à
coisa mas tudo correu bem. Ainda demos com uma equipa que se perdeu
e acabou por ir lá só um elemento picar o ponto a
pé, mas isso acontece aos melhores :)
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Aí começou a primeira grande opção,
ir fazer os pontos opcionais 7 e 8 do outro lado da ribeira, ou
seja descer tudo até lá abaixo, e depois subir, subir,
os montes da serra algarvia. Tivemos a companhia de 2 novas equipas,
o CP Armada e o BCP em que nos fomos acompanhando por algum tempo.
No ponto 7 as casas estavam num monte à esquerda, e enquanto
outras equipas foram subir o monte para ir pelo caminho, fizemos
um atalho a direito e chegámos lá primeiro, onde encontrámos
o primeiro ponto com SI Card. Mais umas subidas e finalmente chegámos
ao planalto para o CP8. Antes de lá chegar alguma baralhação
nos caminhos, um pouco de corta mato, mas lá demos com o
caminho certo. Chegado ao ponto nem olhei para o caminho em frente,
fui picar o ponto, e disse ao pessoal para seguir. Só quando
levantei os olhos é que vi que o caminho acabava ali... mas
afinal não, tinha continuação 50 m mais à
frente e lá seguimos. Em teoria ia ser mais fácil
pois íamos agora descer de novo para a ribeira e o ponto
9 era logo do outro lado. O problema foi que não voltámos
no cruzamento certo, e como era a descer o pessoal entusiasmou-se
e toca a abrir. Cerca de um km depois percebi que não podíamos
estar bem pela direcção, mas pareceu-me que havia
um caminho à frente que encontrava o correcto, e para não
voltar a subir decidimos seguir por aí. Só que um
km depois quando olhei de novo para o mapa, vi que o "caminho"
dizia ribeirão, ou seja, com o cansaço já não
distinguia uma linha de água de um caminho, e não
tivemos hipótese a não ser voltar para trás
até ao sítio correcto, claro que a subir... Por essa
altura o João começou a ressentir-se do sol que tinha
apanhado na canoagem em que não levou chapéu, e começou
com sintomas de febre e de garganta inflamada que teve de ir aguentando.
Lá descemos a ribeira, e mais uma subida empinada do outro
lado, até chegarmos ao ponto 9, onde a Ana Vilar nos fez
a primeira verificação do material.
Aproveitámos a reserva dos burros para
uma paragem e beber uma bebida fresca. Já bem cansados olhávamos
para o ciclómetro e verificávamos que ainda nem a
metade dos 116 kms tínhamos chegado, e a noite estava perto,
e as pernas começavam a fraquejar. Lá seguimos, primeiro
por alcatrão, e depois de novo em terra com mais subidas
até nos cruzarmos com uma estrada nacional, onde abancámos
na paragem de autocarro que lá havia, e trocámos as
tshirts do dia de sol e calor, pelos polares que o frio da noite
nos pedia. Lá nos apanharam o CP Armada e o BCP que tinham
ficado um pouco para trás, e partimos em direcção
a Mealha. A noite ia caindo, tivemos um ligeiro percalço
técnico que nos fez ficar de novo sozinhos, e já de
noite chegámos a Mealha, onde encontramos pela 1ª vez
a equipa Sempre em Festa, que nos disse que o CP 10 era ali perto,
mas sempre a subir e com SI Card. Lá fomos, e nos últimos
metros a pé pois a subida era mesmo lixada. Já noite
cerrada tivemos de optar entre ir pelo meio dos montes num caminho
mais perto mas manhoso, ou ir dar uma volta muito maior mas por
estrada. Jogando pelo seguro lá fomos por estrada, mas andando
mesmo muito mais, e com muitas subidas pelo meio. Na chegada ao
Ameixial já em plena N2 fizemos uma pausa mais séria
para jantar e descansar num café que lá havia, com
a população que enchia o café, a ver uns seres
estranhos a entrarem por ali a dentro, com roupa esquisita, de BTT
e muito cansados/esfomeados. Nessa altura detectámos um furo
numa das rodas, mas foi o melhor sítio onde nos poderia ter
acontecido e trocámos rapidamente de câmara de ar.
Depois de algum esforço para sair do café, onde os
Sempre em Festa iam despejando todos os tachos que por lá
havia, lá seguimos pela N2 em direcção ao CP11.
E não é que o raio do engenheiro que fez a estrada
a partir do Ameixial se lembrou de passar mesmo pelo marco geodésico
que havia lá na zona? Durante kms, foi subir, subir, subir
numa inclinação relativamente suave, mas que após
um dia daqueles deu para doer. Fomos compensados no alto do monte
com um placard a dizer para vermos a vista panorâmica do alto
da serra do Caldeirão, onde como podem imaginar à
meia noite de 5ª para 6ª tinha uma grande vista :( A partir
daí vingámo-nos com a descida, ainda conseguimos arranjar
forças para ir ao ponto 11, que embora sendo opcional ficava
perto da estrada, e lá fomos visitar mais uns casebres abandonados,
onde estava o CP. Já com muito sono e cansaço, seguimos
pelo caminho onde andámos a passar pela mesma ribeira meia
dúzia de vezes, até chegarmos de novo à N2,
e voltarmos para a esquerda para descer o monte em direcção
ao ponto 12. E quem disse que descer também não custa?
Num caminho não em muito boas condições, uma
descida razoável que deu para cansar também os braços
até picarmos o ponto. Com mais de 100 kms nas pernas de BTT,
e 30 kms nos braços da canoagem de manhã, e com o
João a acusar a febre e o Marco já num estado de quase
zombie, não deu para arriscar e fomos directos para a chegada
em Salir, pois o CP13 era opcional e ainda tinha um desnível
de quase 200 m o que aquela hora da madrugada já era demais
para a nossa camioneta. A recta até Salir nunca mais acabava,
e até a ligeira subida final custou a fazer. Lá chegámos
finalmente ao fim da 2ª etapa lá para as 4 da manhã,
e após comermos algo, e tomar um banho fomos repousar. Pelo
meio o Marco começou a vomitar, e o João continuava
a queixar-se da febre e garganta que mesmo com os comprimidos não
melhoravam. Estávamos em 7º lugar, as coisas não
estavam a correr mal, mas também não estavam famosas.
O que seria de nós no dia seguinte com mais 2 etapas de arrasar,
com grandes altimetrias e mais de 130 kms? Fomos dormir 3 horas
porque de manhã seria outro dia...
3ª ETAPA - Orientação Pedestre
Acordamos um pouco antes das 8h, e confirmava-se
o estado não muito saudável do João e do Marco.
Após o cansaço do dia anterior e as poucas horas de
sono as coisas já funcionavam um pouco mais devagarinho,
e por isso demorámos cerca de uma hora para partir. Curioso
ver chegar as camionetas com os miúdos para a escola e aquele
pessoal todo maluco para partir para mais uma etapa do Raide. Por
essa altura chegaram também uma ou duas das últimas
equipas e vimos que afinal ainda não éramos os mais
atrasados.
Assim que pegámos no mapa a primeira decisão era ver
que pontos fazer. Dada a grande dimensão da etapa, o estado
da equipa, e os pontos opcionais 14 e 15 da escalada e espeleologia
estarem logo no início e com uns kms adicionais (e uma subidinhas
a mais) do caminho para o primeiro ponto obrigatório, decidimos
de imediato saltar esses e ir directos ao 16, o que nos poupou o
transporte dos baudriers.
Lá seguimos sempre por estrada e o ritmo não estava
muito forte mas lá íamos andando. Na altura optei
por seguir sempre pelo alcatrão quase até ao ponto.
Só mais tarde em casa vi que havia algumas opções
em que se pouparia um ou dois kms por caminhos mas pelo menos fomos
certinhos.
Há medida que o tempo ia passando a vontade de parar era
muita, mas íamos insistindo em manter o ritmo, acordando
que descansaríamos um pouco ao chegar ao ponto. O Marco ficava
às vezes um pouco para trás, dado o seu estado de
alguma fraqueza. Passei a levar-lhe também a mochila, e fui
acompanhando-o em termos de alimentação de hora à
hora e com a muito constante tarefa de o fazer beber água
pois era eu que lhe levava o camelback. O tempo ia passando e para
"animar" ia contando os kms, só faltam 8, 6, 5,
4, 3,... claro que apenas para o ponto 16 e que depois desse ainda
faltariam mais de 30 para a chegada mas enfim. Quando faltavam cerca
de 3 kms avistamos ao longe a casa onde deveria estar o CP. Pelo
meio mais uma ribeira, ou seja descer até lá, e uma
subida de mais de um km do lado de lá monte a cima que se
via bem de onde estávamos. Nessa altura já o sol ia
alto o que também não ajudava muito. Em todo este
troço não vimos uma única equipa, a que associamos
terem ido todas fazer a escalada.
Na subida impus um ritmo rápido e lá acabei por chegar
ao CP, que afinal não era na casa que se via bem ao longe,
mas num casebre 100 m depois. O pessoal vinha logo atrás
e aí mais um susto ocorreu: o Marco tinha começado
a sangrar do nariz, devido à subida e talvez ao calor. Parámos
como combinado para descansar, uma compressa serviu para estancar
a hemorragia que era ligeira, e lá ficámos a comer,
a trocar de meias para evitar as bolhas e a apanhar um pouco de
sombra.
De repente uma equipa se aproxima e quem era senão a Prisma,
em grande ritmo, após terem já feito a escalada (onde
disseram ter demorado 2h) e a espeleologia. Nem pararam para descansar
e seguiram de imediato monte a baixo, e nunca mais os vimos a não
ser 3 etapas mais tarde. Vimos que a opção de ter
saltado a escalada se calhar até não tinha sido mal
para nós, e após ver toda aquela energia da Prisma
lá nos levantámos e seguimos viagem monte abaixo e
depois muitos montes acima.
Ficámos a saber nessa manhã que o Marco no seu estado
de algum delírio gostava muito de hospitais, e dizia que
tinha saudades das camas fofas que eles tinham, e das sopas que
serviam. Nós lá o fomos animando e dando um pouco
a volta, e curiosamente a meio da etapa ele começou a recuperar
e a andar a um melhor ritmo, começando aí a ressentir-se
mais o João com a sua garganta e as costas que lhe começaram
a doer. Por essa altura foi a vez do Paulo levar a mochila do João
e íamos 2 cada um com 2 mochilas e os outros dois mais leves
para mantermos o ritmo. Por esses montes acima ainda tivemos uns
encontros com umas abelhas que gostaram de nós, acho que
ainda cheguei a ser picado, mas ou o ferrão não ficou
bem espetado, o que é um facto é que o veneno não
actuou.
Por essa altura, vi mais tarde que andámos sobre o limite
entre o Algarve e o Alentejo, e segundo o mapa estivemos uns metros
para o lado do Alentejo, o que fez com que o Raid tenha mesmo saído
do Algarve (agora que escrevo isto reparo também que o CP3
se não estou em erro na margem esquerda do Guadiana devia
estar em Espanha, não era?). Lá fomos seguindo e vimos
que 2 equipas vinham lá ao longe também em bom ritmo
e em breve seríamos apanhados. E digo bem seríamos
pois com caminhos no mapa e caminhos marcados a caneta, acabámos
por seguir em frente num cruzamento onde deveríamos ter voltado
à direita, e só quase um km mais tarde ao ver um carro
abandonado no caminho, e este ao voltar para a esquerda e não
para a direita como era suposto vimos que estávamos enganados
e toca de voltar para trás. Pelos vistos não fomos
os únicos a perdermo-nos por aqui pois pelo menos mais uma
equipa viu esse carro abandonado? Mais alguém?
Com esse engano lá fomos passados por essas equipas e nem
os vimos. Lá seguimos até ao ponto 17, a história
do costume, faltam 5, 4, 3, 2, 1 km, é já ali, 500
m, é depois da curva, da outra, e lá chegámos.
Mais uma paragem para comer e descansar, e mais uma equipa nos apanhou:
os Sempre em Festa, que tinham partido primeiro que nós,
que também se perderam no carro, mas ainda seguiram mais
em frente que nós. Eles seguiram e nós ficámos
mais um pouco.
Como estávamos a ficar sem água essa foi a prioridade
seguinte. Felizmente havia uma aldeiazinha onde abastecemos numa
torneira que lá havia junto a um campo de vacas, e onde todos
os que passaram por lá não podem ter deixado de reparar
numa vaca que tinha um corno torcido para dentro e que já
lhe estava a perfurar a carne mesmo junto ao olho, o que fez alguma
impressão a todos.
O ponto de animação a seguir foi passar por debaixo
de um grande viaduto da A2. Curiosamente quando regressamos a Lisboa
pelo auto-estrada tentámos identificar o viaduto por onde
passámos mas não conseguimos, ou por nabice, ou porque
é mesmo muito diferente passar de carro por cima a 120, ou
andar debaixo calmamente a 5 à hora. São duas perspectivas
de vida muito diferentes.
A partir daí o caminho aplanava seguindo ribeiras, e como
a disposição até já não estava
má de todo, decidimos fazer o CP 18 que era opcional, mas
que ficava muito perto do caminho normal, e só tinha uma
subidinha de 500 metros. Assim fizermos, e ficámos apenas
a 12 kms da chegada. Lá nos fomos arrastando, e a meio para
variar parámos 5 min. para descansar. Qual não é
o nosso espanto quando surge outra equipa e são de novo os
Sempre em Festa que tinham partido primeiro que nós do ponto
anterior. Afinal eles não tinham ido ao CP opcional e tinham
ficado a descansar debaixo do AE e nós passámos por
eles sem os ver! A partir daí seguimos juntos e lá
fomos na palheta, com as histórias engraçadas que
os Sempre em Festa têm para contar, como o cavalo que comia
morangos e deu cabo de uma vedação electrificada que
os donos lhe fizeram para ele não comer os morangos do jardim.
Soubemos também que eles pertenciam à CGTP (piada
do 1 de Maio da véspera) e que portanto só faziam
os CPs obrigatórios e nada de opcionais que o sindicato não
autorizava. Chamaram-nos capitalistas por fazer os opcionais, mas
nesta altura já seríamos mais burgueses pois opcionais
quase nada... Ainda gozámos bastante com eles nos últimos
dias, pois mais tarde após saltarem uma etapa, começaram
com todo o ímpeto a fazer todos os CPs tornando-se uns capitalistas
de CPs assumidos :)
De repente aparece-nos um jipe disparado, e quem mais poderia ser
que o Alix Guedes da Silva a informar-nos que a chegada tinha sido
alterada e era agora cerca de um quilómetro mais perto.
Novo ânimo e lá seguimos por umas bonitas paisagens
quase sempre junto a ribeiras, até chegarmos finalmente a
São Marcos da Serra. Pelo meio ainda um atalho falhado numa
curva do caminho no mapa, que dum lado se ia muito bem, mas do outro
era uma ribanceira intransponível com 3metros. Passámos
pelo viaduto superior onde estava o Rui Gomes no controlo, e lá
fomos a seguir a direcção do Campo de Futebol, que
era suposto ser "já ali" mas nunca mais aparecia.
Finalmente pelas 18h e qualquer coisa, quase 10h depois de partirmos
chegámos ao final da 3ª etapa. Toca a almoçar/lanchar/jantar?
com a nossa assistência de parabéns pois preparou-nos
umas massas, uns feijões frades e uns ovos cozidos, que souberam
que nem ginjas com os enlatados que por lá havia. Já
passava das 19h, e o que fazer? Partir já de BTT e aproveitar
ainda uma hora de luz, ou ir dormir e descansar um pouco. Olhei
para a cara do pessoal e percebi que a disposição
para partir de imediato não era a melhor. Mais valia jogar
pelo seguro e não arriscar. Toca a dormir até às
21h, para recarregar energias, pois a etapa seguinte eram quase
100 kms e a altimetria até assustava. Brrr...
4ª ETAPA - Orientação em BTT
O Luís lá nos acordou pelas 21h,
noite já quase cerrada para partirmos para a 4ª etapa
em BTT. O apetite para o petisco não era o melhor mas tinha
que ser. Quase 1 hora depois lá saímos bem agasalhados
contra o frio.
Foi a nossa etapa mais isolada onde não encontrámos
uma única equipa ao longo de todo o percurso. Encontrámos
outras aves raras mas isso fica para daqui a pouco.
Sempre que começamos uma etapa nocturna em BTT vamos com
toda a calma, por forma a confirmar bem em todos os cruzamentos
a saída correcta, para não nos perdermos até
entrarmos bem no mapa. Até acabei por nem escolher o trajecto
inicial mais curto, mas optou-se por um que seguia mais por estrada
e parecia mais certo. Assim foi, ao sair de S. Marcos da Serra,
seguimos pela estrada até sairmos por um caminho de terra,
que mais à frente tinha uma grande seta a indicar o local
da aldeia seguinte. Pensei ok, está tudo bem, temos de atravessar
uma ribeira, mas há passagem de certeza com um sinal destes.
Puro engano, passagem havia, mas era pelo meio da água, e
lá começámos aí com os pés meio
molhados.
Fomos seguindo, o caminho subia mas não muito. Às
tantas chegámos junto a uma casa, deveriam ser quase 23h
onde estavam 2 tipos de volta de um carro. Não ficaram particularmente
surpreendidos por nos ver ali àquela hora a andar de BTT
vindos do nada e indo para o nada, deram a boca se estaríamos
perdidos, e nós lá seguimos.
Chegámos ao primeiro CP19 sem grande dificuldade, no meio
de umas casas abandonadas. A partir daí apanhámos
a primeira subida da noite, com as BTTs à mão naturalmente
até chegar a um caminho que nos levava a uma estrada. Olhámos
para o mapa, e esquecemos de imediato o primeiro ponto opcional,
e lá seguimos pela estrada durante muitos quilómetros,
e felizmente quase sempre a descer, o que não foi mau. Ainda
parei para trocar de meias pois tinha os pés molhados. Como
a distância era grande não estava a controlar de início
onde estávamos pelo mapa. Depois para perceber onde é
que já íamos é que era mais complicado, fui
tentando controlar pela distância dos ciclómetros,
e às tantas quando parámos, havia um cruzamento à
direita que tinha uma seta pequenina, e olhando para essa seta concluímos
que era a saída da estrada que queríamos. Estávamos
com sorte e lá seguimos sem dificuldades para o CP21A. O
pessoal já estava a ficar cansado e a querer parar, mas como
o 21B parecia perto no mapa disse que descansaríamos lá.
Só que para variar as coisas não são tão
fáceis como aparentam.
Primeiro tínhamos de atravessar mais uma ribeira, e no mapa
o caminho fazia um grande S por dentro da ribeira, mas quando lá
chegámos a configuração do caminho não
era nada idêntica, e pior do que isso não conseguíamos
ver a saída do outro lado pois só se viam canaviais.
Optámos por nos descalçar para depois termos meias
secas para calçar para o resto da noite. Claro que para chatear
a ribeira estava cheia de pedrinhas irritantes e pontiagudas que
nos lixavam os pés. E depois o trajecto inicial que optámos
por atravessar, pois não víamos o outro lado, às
tantas já estava com água pela cintura, e com tendência
para ainda aprofundar, e com a BTT às costas. Voltámos
para trás e lá demos finalmente com o caminho do outro
lado, que era praticamente a direito de onde tínhamos vindo
e não fazia nenhum S, e para além de ser pouco profundo.
Depois voltar a calçar do outro lado é sempre uma
ginástica interessante no escuro, pois os pés estão
molhados e cheios de terra, como os secar e tirar a terra para calçar
as meias secas, dá sempre uns exercícios que ficariam
bem filmados.
Aí apercebo-me que o Paulo está a cair de sono, pois
afinal ele não conseguiu dormir decentemente nas 2 horas
de pausa que tínhamos feito em S. Marcos da Serra, teria
dormido para aí só 30 min. pois não se quis
deitar no saco cama, e com o frio e barulho não adormeceu.
E para quem o conhece que sabe que ele dorme em qualquer sítio
onde se senta... Obviamente atormentado pelo sono, já estava
a dormir ao pé da ribeira, e tivemos mesmo que o forçar
a acordar e seguir. Aparece-nos então um estradão,
que mais parecia uma pista de aeroporto, e cheio de sinais de trânsito,
o que aquela hora da madrugada dava imenso jeito. O CP21B era já
ali, mas havia novos caminhos e pontes que não estavam no
mapa. Pensava que o ponto estaria junto do caminho, e andámos
ali uns bons 20 min. para trás e para a frente, sem perceber
muito bem a relação entre os caminhos com o que estava
no mapa, e o raio do ponto que não aparecia. Há 3ª
vez que para ali andávamos e como o CP parecia estar numa
casa, que também lá havia, larguei a bicicleta, e
segui quase 100 metros para o pé da casa, pelo meio de uma
vegetação que quase dava pela cintura, e lá
estava o raio do ponto encostado à casa, e com SI Card. Uma
partidazita para quem fazia aquela parte de noite, pois de dia até
se devia ver do caminho.
Parámos para descansar e comer, e confirmei no mapa que o
pior estava para vir. Subir de onde estávamos até
aos 600 m. de altitude.
Avisei o pessoal que se preparasse com o que aí vinha. Subimos
primeiro por terra à mão, depois chegámos ao
alcatrão, e mais 2 kms a subir com uma inclinação
razoável, que dava para ir montado mas a doer. Depois um
cruzamento à esquerda, ainda por alcatrão, primeiro
plano e a descer um pouco e de novo a subir. Percebia-se bem que
estávamos numa encosta da serra de Monchique, e a paisagem
permitia ver toda a orla sul plana e cheia de luzinhas. Possivelmente
de dia até daria para ver o mar, mas à noite também
era giro. E depois o tormento final, sair da estrada e seguir mais
2 kms a pé monte a cima. O cansaço pesava e para aí
a meio mais uma pausa de 5 min. para descansar e trocar de pilhas
que já fraquejavam. Seguimos e às tantas numa curva
do caminho vejo a 100 m um poste de iluminação que
quase ofuscava a vista e penso, ok acabou é já ali
a estrada. Redobro as energias, mas quando chego ao poste grande
decepção, afinal era uma casa, e ainda por cima com
cães, pelo que toca de seguir o caminho monte acima ainda
mais uns 500m até finalmente nos aparecer a estrada. O pior
estava feito. Mais 3 kms a descer e subir mas já em alcatrão
e chegávamos ao 3º CP da noite o 22. Vejo dois carros
suspeitos parados aquela hora da noite num lugar ermo, e aproximo-me
cautelosamente a ver se não estaríamos a incomodar
ninguém. E vejo num vidro um cartaz laranja a dizer Raid
do Algarve. Ilumino o interior e lá está o Rui Gomes
a dormir. Insisto, faço barulho e lá acaba por acordar
:) Ainda meio estremunhado toma nota da equipa e lá seguimos
nós a descer monte abaixo vertiginosamente, e ele a continuar
a dormir.
Chegamos a Monchique ao cruzamento principal às 4h da manhã.
Mais uma paragem para comer, e pensar que malucos é que andam
às 4h da manhã de BTT pelo meio das serras numa noite
de 6ª para sábado quando todo o resto do mundo nas redondezas
está a dormir. Para contrariar o meu pensamento, aparece
um jipe, com um maluco ainda maior chamado Alix Guedes da Silva,
que logo acha que aquele é o lugar ideal para umas verificações
técnicas. Todo o material para fora, e quando se chega aos
chapéus, eu digo que tenho o capacete, pois no regulamento
diz chapéu, boné ou similar. Ora parece-me que um
capacete às 4 da manhã é similar a um chapéu,
ou boné, ou seja, usa-se na cabeça. O Alix não
era bem dessa opinião, mas não teve coragem de nos
tirar um CP por causa disso, ainda me emprestou o seu Buff para
fazer de chapéu, e disse-me que ficava assim. Ainda bem que
não estava lá mais ninguém e portanto ninguém
vai saber desta história :) Depois à Alix lá
nos disse que agora até Aljezur era sempre a descer e numa
hora estávamos lá. Duvidei um pouco ao olhar para
o mapa, numa zona que dizia Espinhaço de Cão, que
nos meus tempos de 4ª classe era uma serra, mas pronto lá
seguiu ele monte a cima de jipe para reacordar o Rui Gomes, e nós
para baixo em direcção a Aljezur.
Falta dizer que todo o tempo que tivemos parados estávamos
mesmo em frente de uma singela plaquinha que nos dizia Foia a 8
kms. Ainda olhei várias vezes para o mapa, pois o caminho
era sempre alcatroado, mas sempre subia dos 400 aos 900m e vi que
o pessoal estava com a resistência em baixo, o Paulo a dormir
em pé, e que embora até pudéssemos conseguir,
a factura a pagar mais tarde poderia ser elevada, e Aljezur ainda
estava longe.
Esquecemos portanto os 3 opcionais que se seguiam e apontámos
agulhas para Aljezur. A parte inicial foi óptima: alcatrão
sempre a descer, e nós sempre a abrir. Voltámos no
cruzamento que indicava estarmos "só" a 33 kms
e lá fomos descendo. Mas claro que tudo o que é bom
acaba, e como não há nenhuma estrada que desça
33 kms seguidos, claro que começou a aplanar e por vezes
a subir ligeiramente. E mais uma luta psicológica: já
tudo zombie, a pedalar numa estrada recta durante minutos que pareciam
horas, e os kms que não passavam. Num cruzamento uma placa
para trás indicava Monchique a 8 kms, quando nos parecia
que já tínhamos andado uns 20... Pedalar, pedalar,
por vezes a descer, quase sempre plano e a subir de vez em quando
sempre em alcatrão. Cada um inventava as poses mais estranhas
para descansar o traseiro já mais que amassado e o ritmo
não era dos melhores, pois pode-se dizer que o percurso era
uma granda seca. Chegámos a Marmelete, nome engraçado
às 5h da manhã. Não sei porquê ninguém
nos veio receber e saudar a nossa passagem, e mais uma pausa para
descanso psicológico. Faltavam só 17 kms para Aljezur...
Mais pedaladas, e o percurso naturalmente começa com ligeiras
subidas e descidas e penso na frase do Alix que era sempre a descer
(eu quando vou de carro também me parece o mesmo). Uma ou
duas vezes parece que alguém adormece na bicicleta, e vai
disparado em direcção à borda da estrada, mas
um berro a tempo, faz com que se endireite e volte ao caminho, mas
que assusta quem vai atrás, assusta! Mais kms, e de repente
a estrada enche-se de buracos. Percebo rapidamente que saímos
do concelho de Monchique e entrámos no de Aljezur, pois na
nossa terrinha a mesmíssima estrada num concelho pode estar
em boas condições e quando se passa para o concelho
vizinho uma lástima, o que era o caso. Então para
os traseiros doridos aqueles buracos obrigavam a novas ginásticas.
Por outro lado dois factores ficaram a nosso favor: como era de
esperar o dia começou a clarear e portanto começámos
a ter visibilidade, e por outro o caminho começou a descer
de vez até Aljezur. Passámos ao lado e vejo que ainda
nem entrámos em Aljezur e já estamos a sair em direcção
a norte. Confirmo no mapa com receio que a chegada esteja mal marcada
como tinha acontecido em S. Marcos, mas não, estava tudo
bem e a chegada era mesmo afastada de Aljezur. Eram cerca das 6h
da manhã quando finalmente chegámos, e vencida a difícil
4ª etapa fazendo apenas os pontos obrigatórios, mas
mantendo-nos em prova e ainda em condições mínimas
para continuar. Nem comemos quase nada ao chegar tal era o cansaço
e toca a dormir de imediato. Isto é que é vida! Pedalar
12h, dormir 2, andar 10h, dormir 2, pedalar 11, dormir... Pela altimetria
o pior já tinha passado, mas o dia de sábado ainda
ia ser duro. Como foi fácil adormecer...
5ª ETAPA - Orientação Pedestre
 |
Para quem se deita às 6h30 da manhã,
acordar pelas 8h30 é sempre animador. Olho à volta
no pavilhão e não está praticamente mais ninguém,
com excepção da assistência da equipa Portuguese
Spirit/Not So Easy que ainda nem sequer tinha chegado. Saio para
fora e vejo montes de equipas. O que é que se passa para
estar tanta gente cá fora? Abro melhor os olhos de sono,
e o cérebro em ritmo lento, lá descobre que estas
equipas são diferentes, e trata-se afinal do pessoal do mini-raid
cheio de energia para começar a sua prova, e que nos olhavam
com um misto de respeito e de ironia por nos ver naquele estado
tão pouco "apresentável" enquanto eles estavam
frescos que nem uma alface. Falei com algum pessoal conhecido de
outras equipas que nos desejaram boa sorte, e após o pequeno
almoço, lá partimos para a 5ª etapa pedestre,
enquanto em fundo o Jorge fazia o briefing inicial para o pessoal
do mini raid.
A nossa partida foi logo anedótica. O cameramen filmava a
nossa saída, e eu a sair vejo uma estrada e sem olhar bem
para o mapa sigo por ela. Mas levanto a cabeça, e lembro-me
da madrugada anterior que tínhamos vindo pela estrada principal
que ficava ao lado e ia ter a Aljezur, e novamente sem olhar para
o mapa, digo para apanharmos essa estrada até Aljezur. O
cameramen lá foi a correr à nossa frente para filmar
a nossa ida. Chegamos à estrada e olho pela primeira vez
a sério para o mapa, e descubro que afinal o melhor caminho
sempre era o inicial por onde tinha ido por instinto, e lá
voltámos nós outra vez para trás, com o camaramen
a olhar para nós a não perceber nada... Para ajudar
à festa partiram mais ou menos na mesma altura as equipas
da Escola de Aventura e os campeões da Prisma (depois de
terem feito todos os pontos da BTT e portanto ainda só ali
estavam) e enquanto eles estavam parados no cruzamento, nós
andávamos feitos barata tonta para trás e para a frente.
Lá nos decidimos todos pelo caminho certo e seguimos em direcção
a Aljezur, não sem antes nos enganarmos e passarmos uma linha
de água sobre umas pedras, que levava a um caminho errado,
quando a 20 m à frente estava uma ponte decente.
Subimos à simpática vila de Aljezur e descemos pelo
outro lado junto a um vale de cultivo, as 3 equipas em amena cavaqueira,
e algumas picardias entre os nossos jovens Paulo e Marco, e o Tiago
da Escola de Aventura que já se conhecem à muito tempo
doutras orientações.
De repente passam 3 tipos por nós de BTT e percebemos que
são equipas do mini-raid que têm o mesmo percurso,
e toda a gente começa a dizer que lhe vamos roubar as bicicletas
para irmos mais depressa :) Claro que logo a seguir o caminho empinava
para o 1º CP, e enquanto eles nos passaram a abrir em plano,
nós voltámos a apanhá-los a meio da íngreme
subida, pois eles tinham que alancar com as BTTs, e ainda por cima
uma equipa teve azar e acabou aí por partir uma corrente
e só nos voltou a ultrapassar 1h depois. Passado o ponto
a subida acabava numa estrada. Aí o João já
se estava a ressentir da forma e das costas, e a Prisma seguiu com
a Escola de Aventura enquanto nós ficámos mais para
trás. Lá fomos seguindo ao nosso ritmo mais lento,
e esse foi dos troços mais desagradáveis, pois a estrada
tinha muito movimento automobilístico. Passados uns kms,
lá entrámos num caminho mais calmo, e seguimos numa
zona praticamente plana, e já com o cheiro do mar por perto.
A partir de uma certa altura o caminho do mapa não coincidia
muito com o percurso mas como não havia grandes alternativas
seguimos e lá acabámos por ir ter ao 2º CP numa
casa abandonada, não sem antes termos visto mais uns BTTistas
meio desorientados, a percorrerem cada um dos caminhos do cruzamento,
o que para mim foi uma nova técnica de orientação...
Nessa altura sempre que eu parava 10 seg. para ver o mapa já
toda a gente da minha equipa queria parar para descansar, mas como
o objectivo era tentar estar às 18h em Vila do Bispo, tínhamos
de manter um ritmo constante e não dava sempre para estar
a parar, pelo que combinei que pararíamos no próximo
CP para "almoçar" e descansar. Curiosamente neste
3º dia, o Marco que tinha passado as passas do Algarve no dia
anterior demonstrava uma boa capacidade física, o João
mantinha os seus problemas com as costas e a garganta, e o Paulo
começou a fraquejar com dores nas canelas. Fomos andando
com o habitual contar dos kms em falta até ao CP, entusiasmei-me
tanto que até me enganei no sítio onde estávamos
e na contagem, e quando tinha dito que devia faltar menos de 1 km,
aparece o marco geodésico ao fundo, onde estava o CP, ainda
para aí a mais de 2 kms. Não sei se o pessoal percebeu
mas lá seguimos por caminho de areia nada aconselhável
para quem está cansado, e por essa altura estavam a Prisma
e a Escola de Aventura a sair do CP, pelo que nós mesmo a
um ritmo não muito rápido não estávamos
a perder muito terreno. Chegámos, lá fomos todos ao
marco geodésico ver a paisagem e usar o SICard (obrigado
organização :) e parar para descansar e comer, com
o mar quase em fundo.
O ritmo não estava para opcionais, mas como o opcional seguinte
ficava mesmo ao pé do CP obrigatório não tivemos
outra hipótese senão lá ir. O caminho não
era muito variado, ainda passámos por uma casa a pedir água,
mas não tinham, e antes de chegarmos ao alcatrão,
encontramos a equipa do CP Armada, nossos companheiros da 2ª
etapa, mas em que um dos elementos teve azar com o joelho, o que
os obrigou a saltar etapas, e lá iam de carro para começar
a 6ª etapa. Pararam, saudaram-nos, deram-nos ânimo, e
um pouco de água, antes de seguirem. Fomos pelo alcatrão
até à Carrapateira a levar com o sol da tarde, e a
desviar-nos dos carros que passavam a abrir. Na Carrapateira abastecemos
os CamelBacks de água, demos com um inglês com uma
carripana toda original, e o Paulo começou a ressentir-se
cada vez mais das canelas. Fui novamente obrigado a pôr o
pessoal a andar pois já queriam parar novamente para descansar,
e seguimos até à praia do Amado, com várias
tabuletas a indicarem a escola de Surf, que era o que nos esperava
no ponto opcional. O Paulo lá se foi a arrastar até
lá, e quando chegámos à praia já dizia
que não aguentava mais, e não queria pôr em
risco a sua integridade física. Como íamos ter uma
actividade pedi-lhe que esperasse para ver se passava ou não.
Depois por azar entrámos na praia principal que estava cheia
de gente, mas sinal da organização zero. Ainda andámos
um pouco por lá, com toda a gente a olhar para nós,
mas lá percebemos que estávamos no sítio errado,
e que a organização estava numa zona mais protegida
do outro lado da praia, por onde tínhamos chegado e ignorado.
Estavam lá a equipa da Prisma a fazer a sua prova, e a Escola
de Aventura e nós éramos a seguir. A Prisma limpou
aquilo a brincar, a Escola de Aventura de início com alguma
dificuldade mas depois lá fez também. Chegou a nossa
vez e fui eu e o Paulo fazer, pois o João como estava não
convinha andar em água fria, e o Marco para nadar não
é bem com ele. Costumo safar-me bem dentro de água
a nadar e não tenho medo das ondas, mas nunca tinha andado
numa prancha. A experiência não foi a melhor pois nem
em cima da prancha me consegui meter decentemente. Uma vergonha!
O Paulo também ainda tentou mas não teve muito melhor
sorte, a corrente arrastáva-nos demasiado para sul, e ao
fim de algumas tentativas lá desistimos pois não valia
a pena estar-nos para ali a cansar sem nenhum proveito. O CP opcional
lá ficou ao largo na bóia, sem ter o prazer da nossa
visita. Após uma sessão de strip lá seguimos
em direcção ao CP seguinte a 1 km no alto do monte
vizinho. Ainda ajudámos o elemento feminino da Escola de
Aventura que estava também com problemas nos tornozelos e
queria pôr uma ligadura elástica, e lá atravessámos
a praia tipo marcianos na hora de ponta na baixa pombalina. Chegámos
ao 4º CP e último obrigatório, e mais uma mini
pausa para descansar. O Paulo deixou de se queixar das canelas e
portanto ainda havia esperança de chegarmos ao fim. Entretanto
passa-nos a equipa espanhola, que tinha partido depois de nós,
e que nem deve ter ido ao Surf, onde acabámos por perder
quase 2h para nada. Já só faltavam 12 kms para Vila
do Bispo, descemos até à praia seguinte, e mais uma
subida monte a cima em direcção à estrada.
Num caminho vimos um carro ligeiro a descer pelo meio de um troço
cheio de valas, mas à última ganhou juízo,
e conseguiu fazer marcha atrás, sob risco de já não
sair de lá. O resto não tem muita história,
andar, andar, andar, ver uns moinhos de vento ao longe, que uma
hora depois estavam muito mais perto de nós! Mais uma pausa
antes de chegar à estrada 4kms antes da chegada, e uma recta
que nunca mais acabava até à meta. Ainda deu para
ver umas vacas que ao lado do campo de futebol lá seguiam
sozinhas o seu caminho de todos os dias de volta ao sítio
onde pernoitavam, passámos por um restaurante que emanava
um cheiro delicioso, mas a nossa assistência estava já
ali a 200m. Eram quase 20h, e mais uma etapa estava vencida e o
fim do Raid aproximava-se. Após um jantar pseudo-retemperador
tudo deitado no saco cama a dormir ao relento durante mais 2 horas
até à etapa seguinte. Onde é que eu já
vi isto?
6ª ETAPA - Orientação em BTT
22h da noite. Acabados de sair dos saco-cama,
já bem húmidos, por estarmos a dormir no meio da relva
na praça onde era a assistência, preparamos a nossa
partida para a 6ª etapa em BTT. No meio da confusão
falta um dorsal. Tudo à procura do dorsal mas nada de aparecer.
Eu garanto que o tirei e deixei junto ao local onde chegámos
mas o facto é que não aparece. Um quarto de hora nisto
com o Luís à procura em toda a carrinha do dorsal
invisível, mas nada. De repente, o meu cérebro em
câmara lenta leva-me a olha para o que tenho vestido: o meu
dorsal, por debaixo o polar para o frio da noite, e por debaixo
do polar outro dorsal... O mistério estava resolvido! Era
eu que o tinha vestido o tempo todo. Mais uma barraca, mas pelo
menos tinha aparecido e estávamos prontos para partir. Tudo
a experimentar o traseiro no selim da BTT mas pelos vistos ainda
dava para andar.
Lá fomos nas calmas. O ponto 32 do rappel já tinha
fechado à muito tempo e portanto nem nos preocupámos
com ele. Começámos logo com 2 mini-enganos. Não
entrámos na 125 porque pensava que havia outra estrada, e
depois já na 125 não saímos logo na Raposeira
pois havia um caminho mais à frente, mas isso era antes de
terem vedado aquela zona da nacional, pelo que lá voltámos
para a Raposeira. Deixámos as luzes da localidade e embrenhámo-nos
na escuridão caminho a cima. Muitas casas novas que não
havia no mapa, mas lá fomos seguindo a direcção
até que o caminho aplanou. Não devíamos estar
mal, e o ponto estava mais à frente num caminho à
direita que fazia uma espécie de triângulo com o sítio
onde estávamos. Surge o caminho à direita e virámos.
Só que quando chegámos ao vértice do triângulo,
no outro cruzamento a baliza não constava. Fico um pouco
preocupado, e decido seguir para trás pela nova aresta do
triângulo. Assim fazemos e por sorte vem uma equipa na direcção
contrária, que por acaso era só a Prisma, que tinha
ido ao rappel, e pelos vistos jantara por Vila do Bispo, e confirma
que o ponto é já ali. Chegamos ao cruzamento anterior
mas o CP também não estava... Confirmo pelo mapa,
e afinal o ponto que parecia estar no cruzamento estava desviado
mais para dentro junto a um pequeno lago. Havia um caminho até
lá, seguimos e lá apareceu a baliza. Do lago não
conseguimos ver nada mas lá que se ouvia rãs a coaxar,
ouvia!
O 33A não tinha sido fácil e ainda tínhamos
de fazer o 33B que nem parecia difícil. Puro engano novamente.
Havia montes de caminhos novos que eram parecidos com o que estava
no mapa mas não muito. Fomos seguindo quase por intuição,
e às tantas passámos pela Prisma que estava parada
também com dúvidas como nós. Fomos à
frente deles, e de repente o caminho por onde seguíamos cruzava
com outro, quando deveria seguir em frente o que não acontecia.
Meio baralhados, optámos pela direita, mas começou
a descer o que não podia ser. Voltámos para trás,
e lá mais à frente lá estava o caminho que
"seguia em frente" do anterior, e por aí seguimos,
e umas curvas depois lá chegámos ao 33B numa casa,
tendo o prazer de ver a Prisma a chegar atrás de nós
logo a seguir (não acreditam ?:)
O 1º CP da noite estava feito com algum trabalho. Olho para
o mapa e vejo que o 34 opcional fica mais ou menos a caminho, mas
as opções são manhosas. Decidimos arriscar
e ir lá, mas optando por uma opção segura:
apanhar a estrada alcatroada, e depois daí abordar o CP que
ficava a 1,5 km. Na saída do CP fomos por um caminho errado
que acabou por desaparecer, e como é claro a Prisma apanhou
o caminho certo e ficámos de novo sozinhos na noite. Voltámos
atrás para apanhar a opção correcta. O que
no mapa parecia fácil que era apanhar a estrada revelou-se
mais uma dor de cabeça. Cruzamentos que não vinham
no mapa, estradões bons que de repente quase que desapareciam,
e muito instinto a escolher a direcção, lá
nos fizeram seguir e andar por sítios que embora não
muito identificáveis com o mapa, lá nos fizeram chegar
a um dos vales que tinha ligação à estrada
alcatroada onde finalmente chegámos. O mais difícil
já estava. Seguimos 3 kms por alcatrão, apanhámos
a saída correcta e após uma subidazita chegámos
a um cruzamento, onde apanhámos de novo a Prisma que tinha
acabado de picar o CP e outra equipa que se queixava de ter andado
uma hora para descobrir o ponto. Afinal de contas a nossa opção
até não tinha sido má de todo. Andei 50 m para
baixo e lá estava o CP junto a um poço num parque
de merendas, com bancos e tudo, o que dava para um óptimo
repasto, e ceia pós meia-noite. O resto da minha equipa não
veio ao ponto pois ficou no outro cruzamento onde tínhamos
encontrado as outras 2 equipas. É então que me dá
um momento de birra (também tenho direito, não é?)
e fico ali junto ao CP a comer à espera que eles venham o
que não acontece. Claro que eles também estavam à
minha espera, e lá acabam por aparecer, discutimos um pouco
sobre não estarmos juntos e afins, mas como o lugar tinha
bancos para descansar um pouco as coisas acalmaram. Nova jornada
a preparar, e como já tínhamos decidido que não
íamos ao slide, pois deixámos na assistência
os baudriers, seguimos para o CP 36 cuja opção era
quase sempre por estrada, passando inclusive por debaixo do novo
troço da Via do Infante e por algumas aldeolas, o que dava
para animar, e até ainda vimos gente acordada na rua, o que
na etapa da noite anterior de BTT em Monchique não aconteceu.
Acabámos por passar de novo pela Prisma que estava parada
a descansar, e nunca mais os vimos pois entretanto foram fazer o
slide. Depois de alguns cruzamentos o alcatrão acabou, e
estávamos a pouco mais de 1km do CP, com uma subidita até
aos 100 m que até acabou por ser mais fácil do que
estava à espera, embora algumas partes fossem feitas à
mão pois tinham muitos calhaus, e até deu para o Paulo
ter uma daquelas quedas absurdas parado ao desmontar da bicicleta.
Nós ainda gozámos, mas aquilo ficou-lhe a doer e não
achou graça à brincadeira, mas lá seguimos
até ao CP, onde para variar abancámos de novo a reabastecer
energias. Estávamos no ponto mais alto do Raid até
ao final da prova a 100m. de altura pois daí para frente
era só a diminuir até ao mar. Para quem esteve nos
600m estávamos por baixo :) E de repente surge mais uma equipa,
e quem era senão os nossos amigos do Sempre em Festa que
já estavam na sua fase capitalista de fazer os pontos todos
(quem não perceber a piada vá reler a 3ª etapa).
E tal como nessa etapa nós ficámos e eles seguiram.
Por acaso até fomos mauzinhos pois eles optaram por seguir
pelo caminho por onde tinham vindo, quando a melhor opção
na minha opinião fosse o outro caminho. Mas eles discutiram
com tanto afinco se iam por um lado ou por outro que achámos
melhor não nos meter. Pouco depois partimos pela nossa opção,
sempre a descer a abrir pelo meio dos calhaus, e voltámos
de novo ao alcatrão, passámos por debaixo da Via do
Infante novamente, e retomámos a N125 já em direcção
a Lagos. Só faltava o CP 37 que também já não
estava longe. Antes de Odiáxere apanhámos um caminho
à esquerda, e nessa escolha do caminho fomos reapanhados
pelos Sempre em Festa pelo que a nossa opção anterior
deve ter sido melhor. Seguimos pela estrada secundária, até
apanharmos um estradão à direita. E parecia favas
contadas com uma ligeira subida até aos 60 m. (ufa, que ganda
subida) quando mais uma vez a realidade vem demonstrar que o que
parece fácil torna-se difícil. Pelo mapa seguimos
um caminho que passava ao lado de uma casa, e pouco depois ia dar
ao CP. Só que quando chegámos à Casa o caminho
acabava (ou não se via no meio das ervas), e demos de cara
com uns cães acorrentados. Lá os evitámos e
tentámos seguir por onde devia ser o caminho no meio das
ervas e arbustos, vendo umas casas lá em cima perto de onde
estava o CP. Seguimos para cima na filosofia que o ponto estava
no cimo do monte, e depois de estar um pouco preocupado por andarmos
a corta mato para o último CP de BTT, aparece-nos à
frente um grande caminho de óptima qualidade, que no mapa
aparecia marcado a tracejado, mas que foi melhorado entretanto.
Claro que isso nada importou e 500m depois lá estava o último
CP da noite. Mais tarde soubemos que os Sempre em Festa que entretanto
tinham ficado para trás também passaram pela mesma
casa, só que dessa vez o dono farto que tipos estranhos decidissem
passar por ali às 4h da manhã assustou-se e deu um
tiro de caçadeira para o ar. Felizmente não houve
nenhum problema, mas temos todos de ter consciência onde nos
metemos quando andamos às tantas da manhã junto ao
quintal de casas isoladas...
Daí até ao final foi apanhar o alcatrão e descer,
descer até à meia praia e depois sempre a abrir até
Lagos, vendo toda a cidade iluminada à beira-mar para nos
receber. O mais difícil estava feito, e o Raid já
não era uma miragem. Um banho quase frio para retemperar
as energias às 5h da manhã, e toca a dormir até
às 8h. Pelo meio alguém disse que o Benfica tinha
perdido com o Sporting, mas nem quis acreditar, e afinal o que interessa
essas coisas depois de 3 dias sempre em movimento atravessando o
Algarve de uma ponta a outra. Tudo na vida é relativo!
7ª ETAPA - Canoagem
Domingo de manhã. Última etapa
em canoagem. Mais uma vez o nosso ponto mais fraco, mas desta vez
fazíamos só o que queríamos e sem pressão.
Estávamos em 5º com um CP de atraso dos espanhóis
que eram melhores que nós, e tínhamos atrás
o Portuguese Spirit/Not So Easy com muitos CPs de atraso e que só
queriam era dormir e não fazer-nos pressão. O Jorge
deu-nos o mapa como a todas as equipas, e vimos logo que o CP do
mergulho era para esquecer pois ninguém estava para remar
28 kms, e decidimos fazer só o obrigatório e o 1º
opcional que ficava só a 1 km do obrigatório. Um pouco
de stress para dar com o lugar da partida, pois partimos só
com 10 min. de antecedência, e ainda nos perdemos num cruzamento,
mas afinal ainda passámos por várias equipas e até
fomos dos primeiros a chegar ao local, até que acabaram por
atrasar um pouco a partida. O pessoal olha para o mar e vê
que há umas ondinhas interessantes... Eu já tinha
alguma experiência prévia de entrar em mar e a coisa
não me preocupa muito, mas adivinhei que não ia ser
fácil para alguns. Preparados o caiaque, coletes e afins,
vou com o Marco ele à frente e eu atrás, e dou-lhe
a táctica: não custa nada é só manter
o barco perpendicular às ondas e remar sempre remar até
passar a rebentação, pois o barco é estável
e não se vira. O Marco com a sua inconsciência natural
disse que sim, e quando deram a partida lá fomos. O Marco
entra no caiaque à frente, e eu fico de fora a segurá-lo
nas primeiras ondas até ter o momento oportuno para entrar.
Lembro-me de ver já mais à frente os Serralheiros
a passarem a ondulação fora do caiaque, e a pensar
como é que depois eles iam conseguir entrar lá dentro.
Numa pausa das ondas entro no caiaque, e toca de remar. O Luís
na assistência diz que na altura em que entrámos apanhámos
com um set de ondas valentes. Só sei que na primeira onda
a sério que veio, eu gritava para o Marco remar com toda
a força, e ele ficou completamente bloqueado a olhar para
a onda a rebentar-lhe em cima e remar nada. Foi a adrenalina no
seu extremo. Eu a remar feito louco, e a berrar para o Marco para
ele também remar pois as ondas sucediam-se a um ritmo impressionante.
Na segunda onda o Marco voltou a bloquear, e eu vejo perfeitamente
o Marco aos trambolhões à minha frente, e penso que
vai cair do caiaque. No entanto com um equilíbrio (sorte?)
grande conseguiu manter-se no caiaque, e o susto deve ter-lhe feito
bem (para além dos meus berros aos seus ouvidos para remar)
e lá começou a remar decentemente e nas 3 ondas a
seguir já remámos a sério e lá se conseguiu
passar a ondulação. Foi dos momentos mais intensos
e motivantes do raid aquela luta entre as embarcações
e a força das ondas e o conseguir chegar ao outro lado. Quando
passámos vejo que só ainda mais 2 ou três o
conseguiram, e não se consegue perceber mais nada para trás.
Como nós remamos não muito rápido achei que
o melhor foi ir andando. O mar estava agradável mas com uma
ligeira ondulação que dava para subir e descer à
medida que progredíamos. Aposto que se alguém enjoasse
no mar não ia achar muita piada. Quanto ao resto das equipas
via tudo muito separado, uns iam à nossa esquerda quase rentes
à praia, outros iam umas centenas de metros à nossa
direita, possivelmente rumo ao mergulho, dos nossos outros 2 colegas
não os víamos mas esperámos que estivessem
bem e perto e fomos remando nas calmas. Quando nos aproximamos do
local do ponto vemos 2 pontões na costa. Olho para o mapa
e não estão assinalados em lado nenhum. Onde estará
o CP? Faço pontaria ao pontão da esquerda estimando
que o ponto aí possa estar. Quando nos aproximamos vem um
barco patrulha da capitania ou dos bombeiros perguntar-nos para
onde íamos, onde ia ser o mergulho, e a reclamar da organização
que não tinha barco no mar e não lhes dizia nada.
Disse-lhe que éramos só participantes, vi no mapa
onde era o ponto do mergulho e disse-lhes mas que não os
podia ajudar mais. Seguimos e já perto do pontão,
vejo que a coisa encarnada que parecia o CP era uma bóia
de marcação vermelha de um lado e verde no outro pontão,
e que afinal o CP está na praia ao lado do pontão.
Percebo que o pontão está metido na entrada da zona
interna para protecção da violência do mar,
e vamos para a praia picar o ponto. Digo ao Marco que agora vamos
surfar para sair, e que é só remar para manter o caiaque
direito, que as ondas nos levam até terra e assim foi. Fomos
dos primeiros a marcar esse ponto, o que para caiaque para nós
é um feito, e encontrámos a Ana Vilar que estava de
guarda a esse ponto.
O Marco estava com medo de voltar a passar a ondulação,
ainda com o trauma recente, mas as ondinhas ali era muito mais pequenas,
e a saída foi muito mais simples, também porque ele
remou como deve de ser desta vez. Assim que passamos a ondulação
damos de caras com o Paulo e o João que tinham vindo atrás
de nós, e lá nos metemos pelo meio dos pontões
rumo ao CP 39 opcional. Aquilo impressionava um pouco pois a ondulação
ali era mais pronunciada e um pouco mais cavada, mas seguimos sempre
no meio entre os 2 pontões e chegámos a águas
calminhas tipo lago, e como a maré estava baixa rapidamente
encalhámos em terra seca. Ainda fomos um pouco com o caiaque
pela areia passámos pelo outro lado e seguimos mais 50 m.
de caiaque até que voltámos a ficar em areia, e fui
marcar o CP por terra lembrando a prova do Oeste da etapa de canoagem
sem água :)
Não sei se foi por ser a última etapa do raid, se
foi pela adrenalina da entrada, ou por a água ali estar tão
calma em compensação com o mar, mas o que normalmente
é um martírio (a canoagem) até estava a ser
muito agradável e deu-me um vaipe de ir também fazer
o outro ponto opcional do tiro com arco, que não estava nos
nossos planos, mas que afinal era só a 2 kms, na outra margem
no Alvor. Toda a gente estava com o mesmo estado de espírito
e concordou e seguimos nessa direcção. Mais uma vez
fomos enganados por uma bola vermelha num barco que à distância
parecia uma baliza. O Marco ia de boca aberta no meio de todos aqueles
barcos lá ancorados e só dizia que quando fosse grande
queria ter um barco daqueles. No tiro com arco encontramo-nos novamente
com a equipa da Escola de Aventura nossos companheiros na 5ª
etapa, e aquilo era muito fácil, o Marco nunca tinha feito
e quis experimentar e logo nas primeiras flechas ia fazendo os 25
pontos. Olhando para trás foi a única actividade que
fizemos com sucesso. Tínhamos tentado o surf mas correu mal,
e a nenhuma das outras actividades chegámos a ir, o que deve
fazer um pouco pensar para a organização de um próximo
Raid. Despedimo-nos do Jorge e da Nonó e fomos nas calmas
de volta para Lagos. Ainda estava com algum receio de apanharmos
corrente contra na saída do pontão, mas se havia não
demos por ela e saída não foi nada difícil.
Mais 6 kms até à chegada. O cansaço nos braços
começava a fazer-se sentir, mas cada pagaiada nos aproximava
lentamente da praia, que como sempre no caiaque demorava imenso
tempo a crescer, a partir do momento em que se via. Lá fui
apertando pelo Marco, e chegámos ao último momento
de surf nas ondas. Ele não estava muito convencido, mas quando
a onda nos apanhou remámos como deve de ser e conseguimos
sair sem ir ao banho, o que nem todos se podem gabar :)
A grande aventura chegava ao fim, e tínhamos conseguido.
Tal como eu previa antes de começar, e tinha partilhado com
a minha equipa, o mais difícil no Raid não é
tanto a parte física desde que se tenha uma forma mínima,
mas é mais a parte psicológica de vencer o cansaço,
o sono acumulado, e ganhar motivação para continuar
quando só nos apetece parar. Para mim, cada quilómetro
demorava imenso a passar, quer fosse de caiaque, a pé ou
do BTT, mas no final dos 4 dias os 400 kms passaram num instante
e parecia que tinha sido ontem que tínhamos começado
em Castro Marim. Como o tempo é mesmo relativo!
Filosofias à parte alcançámos o nosso objectivo,
fazendo as etapas todas e ficando em 5º lugar, com todos os
CPs obrigatórios, e 9 opcionais (4 canoagem, 4 BTT e 1 pedestre)
num total de 29 CPs, com 71h30m de prova a apenas 2 min. da equipa
espanhola 4ª classificada. 2 min. em 71h não é
nada, mas acho que é merecido para eles pois nem sequer tinham
assistência como nós e deram também sempre o
litro.
Almoço e Entrega de Prémios
 |
O resto da história é fácil:
um banho, mais dormida, arrumar a carrinha, ir para o almoço
às 18h mas que valeu a pena, e assistir à entrega
dos prémios, foi só pena o representante da FPO que
arranjaram... A Prisma foi um justíssimo vencedor e são
mesmo os melhores hoje em dia. No futuro veremos... A Sportzone
teve uma prova muito forte e tiveram um merecido 2º lugar.
Sobre o Clube BCP acho que estavam ao nosso nível, e em futuras
competições poderemos aspirar a este lugar. Dos espanhóis
já falei, e parabéns também ao Portuguese Spirit/Not
So Easy, por terem feito todas as etapas, com muita persistência,
e quase sempre a queimar e sem dormir o que é muito duro.
Prémio do azar para o CP Armada e para o CLAC/NEL que tinham
equipas muito fortes mas que foram atraiçoados pelo empenhamento
que puseram na prova e por terem esforçado bastante, o que
os levou a quebrar. Fica para a próxima e com certeza já
na Serra da Estrela se vão vingar e ficar à nossa
frente :)
Quanto às outras equipas muito bom esforço e todas
deram o seu máximo. Acompanhámos mais de perto os
Sempre em Festa e a Escola de Aventura com quem nos fomos cruzando.
Do EcoTeam vimo-los uma vez quando íamos a partir para a
3ª etapa e vinham eles a chegar da 2ª após dormirem
ao relento, e soubemos que foram dormir noutra noite para um hotel...
Os Salmões e o CCA Sintra ainda nos cruzámos uma vez
ou duas. Quanto ao Team Ronal e ao Dream Team acabámos por
não nos cruzar em prova, pelo menos que me lembre, com excepção
do Dream Team já na chegada de canoagem no domingo.
Acabado o jantar, ainda me deram o privilégio de levar a
carrinha do Algarve até Lisboa o que consegui fazer sem adormecer.
Depois de largar cada um em seu sítio, estava de volta a
casa e aos meus lençóis à meia noite de domingo.
Dormi, mas não foi um sonho, o Raid tinha sido mesmo uma
realidade!
Para quem teve a paciência de ler tudo até aqui espero
que tenha gostado. A minha ideia era mandar um único mail
com a descrição, mas quando comecei a pôr as
coisas no computador vi que tinha muito mais para escrever e contar
do que inicialmente tinha pensado. Espero daqui a 10 anos quando
reler o que escrevi voltar a sentir as mesmas emoções
vividas nestes óptimos 4 dias. O meu agradecimento a toda
a minha equipa, o João, o Paulo, o Marco e claro o assistente
Luís, a toda a organização do UTL Aventura
que tornou isto possível, o Luís Sérgio, o
Jorge, o Alix, a São, a Ana, a Filipa, a Alice, o Rui Gomes,
o Vítor, a Nonó e a Lecas :), a todas as equipas que
connosco participaram nesta aventura, e a todas as outras pessoas
e entidades que colaboraram, apoiaram e tornaram isto possível.
Deixo aqui a minha última provocação: não
sei se nos tempos mais próximos alguma entidade terá
condições para organizar um raid assim, sem ser a
equipa do UTL Aventura. Eu sei que eles não o pretendem fazer
e querem que outros o façam pois logicamente já tiveram
a sua carga de trabalhos. Mas uma coisa é querer e outra
é fazer. Espero que esteja enganado, e que para o ano surja
outra organização tão boa ou melhor que esta
para o 2º Raid do Alentejo, das Beiras, de Trás os Montes,
ou de onde quer que seja. Mas se tal não acontecer talvez
daqui a uns anos o pessoal da UTL Aventura reconsidere e nos brinde
com mais um Raid. Força a todos nas Corridas de Aventura!
P.S. - esta história é baseada em factos verídicos, embora
alguns dados, locais, horas, nomes possam estar baralhados na minha cabeça,
e portanto sujeitos a algumas incorrecções, e muito provavelmente
a vários esquecimentos. Espero que ninguém leve a mal :)
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