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CAMINHO FRANCÊS A SANTIAGO DE COMPOSTELA –
A AVENTURA DESPORTIVA TORNADA AVENTURA ESPIRITUAL
Passei o Verão de 2005 a planear e a treinar, juntamente com outro companheiro de viagem, para uma odisseia que ainda não consegui justificar. Continuo sem perceber muito bem o que me levou a viajar num comboio - ou melhor, em vários - com a bicicleta parcialmente desmontada, em autonomia, desde Santa Apolónia até Saint Jean Pied de Port, uma pequena vila em França, quase na fronteira com Espanha e no sopé dos Pirinéus, e de lá pedalar 840 Km até Santiago de Compostela.
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Volvido cerca de um mês e meio, completamente recuperada mas cheia de pontos de interrogação, dou comigo ainda à procura de uma resposta. Alguém me disse: “Quando chegares a Santiago, ao entrares na Catedral, olha bem nos olhos da imagem do Santo e ele indicar-te-á o teu caminho, tudo ficará claro”. Mas isso não aconteceu comigo. Voltei a Portugal com a dúvida a toldar-me a mente, embora sentisse ao mesmo tempo uma grande satisfação pelo objectivo cumprido do ponto de vista físico, psicológico e mecânico. Com efeito, as máquinas cardíaca, muscular e “a pedais” passaram todas elas com distinção neste teste extremo.
Durante o Caminho sofremos bastante com o calor. Mas isso não era novidade, já era esperado. Estava tudo a correr demasiado bem. Mas numa das subidas mais duras do Caminho – a subida ao Cebreiro – a surpresa surgiu: durante a ascensão começou a chover torrencialmente. Choveu persistentemente durante os cerca de 8 Km. de subida ininterrupta. À chegada à povoação do Cebreiro nova dificuldade: completamente encharcados o frio que começámos a sentir tolhia-nos os movimentos. Impensável descer assim com o corpo gelado. Havia que esperar alguma acalmia nas condições meteorológicas.
Só mais tarde é que aquele episódio fez sentido para mim: não fora um acaso, aquelas dificuldades tinham-nos sido colocadas propositadamente, para que nos lembrássemos que o Caminho é feito de dificuldades, há que ser perseverante, tenaz, sofrer para as ultrapassar, e com elas crescer.
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Hoje, dou valor a estas dificuldades. Mas o episódio ficou aquém da resposta que eu procurava. E na minha imaginação, refaço muitas vezes o Caminho, aquele ou outros, com as mesmas ou com outras pessoas. Vejo-me de novo a parar a bicicleta numa excitação e a meter conversa ao vislumbre de uma bandeira verde e amarela do país irmão, na ausência de peregrinos portugueses. A alegria mútua de falar em Português, o querer saber de onde vinham eles e de onde vínhamos nós, a admiração recíproca pela coragem posta no Caminho – a deles por pedalarmos tanto, de tão longe, em autonomia; a nossa por eles caminharem lentamente, carregados, e com os pés já em muito mau estado.
Repete-se na minha memória a aconchegante sensação sentida e oferecida pelas gentes galegas, ante a proximidade à maneira de estar portuguesa. Nem o odor exalado pelas vacarias das aldeias galegas diminui este sentimento!
Antes que estes pensamentos se vão, pois são o que de mais precioso trouxe do Caminho;
Antes que me esqueça do que vivi no Caminho;
Antes que se desvaneçam na minha memória os rostos das gentes que encontrei, do misto de sensações de medo, de alegria, de dor, de convívio, de entreajuda;
Antes que olvide as coisas simples, como olhar e ver subidas intermináveis, ninhos de cegonha e teias de aranha artisticamente perfeitas;
Antes que já não me lembre do sabor das uvas roubadas naqueles trilhos;
Escrevo estas linhas numa tentativa de imortalizar o que me resta, embora tudo o que eu possa escrever não chegue para retratar o que vivi.
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As fotografias são tantas, e ao mesmo tempo tão poucas...
Não sei de onde vem esta nostalgia que não passa, SAUDADE será o termo. Será esta a Alma Lusitana?
(Segue dentro de dias o relato da aventura desportiva.)
BUEN CAMINO!
Filomena Gomes (Equipa CCAmora)
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