À'ventura
 
 

A TransPortugal Garmin uma prova nica e original. Trata-se de uma competio desenrolada em auto-suficincia durante o tempo estabelecido para cada etapa, tendo como nico meio de navegao um aparelho de GPS com os tracks devidamente carregados pela organizao. Dito isto, muito provvel um participante menos competitivo andar muito tempo sozinho, tambm devido ao sistema de handicaps, facto com o qual algumas pessoas lidaro melhor que outras...

No fui para a TransPortugal com o objectivo de competir. Ou melhor, fui para a TransPortugal com o objectivo de competir, sim, mas comigo mesma. Encarei desde o incio a prova no como uma prova, mas como um teste a mim prpria, um desafio nico, e um meio de melhor conhecer os meus limites. Este esprito foi o que me guiou ao longo de toda a competio, em que no visava nenhuma marca significativa, mas to somente terminar cada etapa, se possvel dentro do tempo estabelecido. Essa era a minha meta, e a experincia vivida e as provaes a que me submeteria seriam o meu melhor prmio. Tais expectativas foram largamente superadas.

Eis aqui o relato possvel, necessariamente resumido, de uma das melhores experincias da minha vida!

1 Etapa: Bragana Freixo de Espada Cinta (143 Km; Desnvel acumulado 3750m; Fecho do Controlo de Chegada 20h)

No briefing da prova todos havamos sido avisados de que esta etapa era a mais difcil, e que quem conseguisse ultrapass-la teria j passado pelo pior. Fomos assim aconselhados a ir com calma, conselho que eu tencionava seguir, no s neste primeiro dia como em todos os outros.

O dia e a prova iniciaram-se s 7h22 com a partida do primeiro atleta, em funo do seu handicap de idade, o americano Cal Burgart, participante j assduo na TransPortugal. Aos atletas masculinos com handicap elevado seguiram-se as atletas do sexo feminino, tendo a minha partida sido s 8h01. Um minutos antes sara a americana Carol Silvera, e uns instantes depois a tambm americana Hillary Harrison, depois seguida da portuguesa Snia Lopes. As quatro constituamos o lote de atletas femininas da prova. Os atletas sem handicap partiram todos s 9h.

De incio, rolou-se uns 2 ou 3 quilmetros no alcatro at se sair para um empedrado rural por onde se entrava finalmente na terra, e seria logo uma subida a matar, como tinha referido a Berta no controlo de partida. Logo no empedrado tive a primeira surpresa: o meu GPS desligou-se pela 1 vez, coisa que tornaria insistentemente a acontecer algumas trinta vezes durante o dia, devido ao fraco suporte que possua e que acusava a trepidao fazendo com que o aparelho se desligasse.

A subida a matar era mesmo longa e difcil, no fundo eram vrias subidas sucessivas, com pouco ou nenhum intervalo entre si. Ainda mantive contacto visual durante algum tempo com as outras raparigas do grupo, mas rapidamente as perdi de vista. Tal situao passou a ser a regra durante todos os restantes dias da prova, o que nem por sombras me incomodava minimamente, antes pelo contrrio. Desde o incio que decidira que no iria atrs de ningum (nem estaria em condies de o fazer) e andaria ao meu ritmo, apostada que estava em chegar ao fim.

Por volta das 11h passou por mim, no meio de uma linha de gua, o primeiro atleta masculino, nada mais nada menos do que o vencedor do ano passado, o Ricardo Melo, logo seguido de mais 2 ou 3, e depois todos os outros (ou quase todos), foram passando por mim ao longo do dia. Esta tambm passou a ser a rotina para mim nos dias que se seguiram: cerca das 10h45/11h, dependendo do traado de incio, eu comeava a v-los passar! Este foi um dia longo, quente no incio e com aguaceiros para o final, chegando a fazer algum frio; dia em que os quilmetros se avolumavam mas o dia parecia no acabar; dia em que as belssimas e bastante diversas paisagens do nordeste transmontano me surpreenderam pela variedade, e em que vrios estrades providenciais a meio ajudaram a percorrer to longa distncia neste primeiro dia em que o desnvel foi o maior de toda a competio! Curiosamente, imensos atletas com furos, pneus trilhados e ainda outras avarias, desde o meio at ao fim da etapa. Ainda parei 2 vezes, uma para ajudar o Lus Gomes cuja bomba parecia no encher, e outra para ajudar um holands, a quem estava prestes a ceder a minha nica cmara de ar, mas ele teve pena de mim e achou melhor no ficar com a nica que tinha!

A chegada meta dentro do tempo (cerca das 19h), muito ovacionada pelos controladores e outros atletas (bondade deles) que j tinham chegado, foi para mim a primeira vitria. Esta foi outra rotina, que de rotina pouco tem (como se pode utilizar a palavra rotina para qualificar algo to nico e marcante como a TransPortugal??) que passou a repetir-se: a simpatia e o apreo de todos aqueles que se encontravam na meta e que faziam questo de nos felicitar sempre que algum de ns atingia a meta! S quem por isto passa pode apreciar o quanto to simples gesto nos transmite confiana e incentivo! Nunca os metros finais de uma etapa me custaram tanto, visto que os ltimos 100 metros eram a subir em empedrado, com 143 km nas pernas, at uma fortificao, do gnero torre de menagem, de Freixo de Espada Cinta. L estava montada a tenda da organizao com alimentao e bebidas para os atletas, at porque comeou a chover bastante naquela altura e a tenda foi imprescindvel.

Passou-se uma meia hora e chegou o nosso companheiro Hugo Velez, dentro do tempo, cansado mas feliz! Soubemos depois que outros companheiros nossos, e outros, no tinham conseguido chegar dentro do tempo e tinham ficado no ltimo CP.

2 Etapa: Freixo de Espada Cinta Alfaiates (111 Km; Desnvel acumulado 2343m; Fecho do Controlo de Chegada 19h)

O 2 dia, de muito calor, comeou para mim por volta das 9h20, iniciando-se logo com uma subida terrvel, no dando chance a que os msculos aquecessem antes. Para no variar, logo nos primeiros minutos passaram-me a Hillary e a Snia Lopes. A Carol raramente a chegava a ver, pois ela partia antes de ns. Esta etapa teve troos muito bonitos, tendo tambm no incio uma zona extremamente tcnica na zona de Poiares, em que havia um single track, cheio de degraus de xisto (viva a suspenso total!), que serpenteava em torno das encostas, havendo muitas partes em que no era de todo possvel seguir montado, e l em baixo era o abismo! Igualmente bela a aproximao (em estrada) e passagem por Barca de Alva, e a penosa e quase impossvel (intil romper as pernas) subida ao alto de Figueira de Castelo Rodrigo. At aqui as subidas no tinham perdoado, em nada mostrando que o dia viesse a ser mais fcil que o anterior. Ao entrar na cidadela, junto a uma fonte onde pretendia reabastecer de lquidos, tive uma bela surpresa: estava l, alm da controladora, a minha assistncia, que embora impossibilitada de me dar assistncia (o regulamento no o permite), sempre me deu fora e nimo e sabe bem ver uma cara conhecida de longa data a torcer por ns. A controladora tambm disse que a partir dali era s deixar a bicicleta rolar sozinha, que no haveria mais subidas. Eu no queria acreditar muito, mas veio a verificar-se mais ou menos isso, embora faltassem ainda muitos quilmetros e o dia me estivesse a custar mais do que o anterior, devido dificuldade e nmero de quilmetros da vspera.

Refira-se que ao longo de cada etapa havia sempre 4 ou 5 CPs, onde no era necessrio parar, que mais no eram do que um controlo intermdio, na medida em que os GPS registavam tudo, sendo tambm um ponto em que era sempre agradvel ver uma cara da organizao. Tambm passou a ser costume os controladores puxarem por ns e aplaudirem e darem palavras de incentivo. Cheguei meta por volta das 17h, tendo a meia dzia de quilmetros finais sido bonita, em alguns single tracks pelo meio de arvoredos baixos e estreitos, com passagem de algumas linhas de gua, mas a que eu j no estava a achar muita graa, pois queria era chegar e avanar mais rapidamente nos poucos quilmetros que me separavam da meta!

3 Etapa: Alfaiates Ladoeiro (110 Km; Desnvel acumulado 2451m; Fecho do Controlo de Chegada 18H40)

Esta foi para mim a etapa mais bonita, em que se atravessava a Serra e Reserva da Malcata, habitat protegido do lince ibrico, que eu no vi, mas tendo a beleza daquela floresta nica compensado tudo, mesmo as subidas difceis, seguidas de descidas de cortar a respirao, para as quais muito tnhamos sido alertados. Fomos igualmente alertados, no briefing dirio em que recebamos as informaes com os pontos de gua, os troos perigosos e a altimetria da etapa, para o completo isolamento em que iramos rodar durante os primeiros 50 quilmetros, no havendo qualquer povoao ou ponto de gua. Valeu bem a pena. O que teria dispensado bem (ser mesmo?!) teria sido, sada da Malcata para a estrada e logo depois a reentrada na terra, aquela poeira miudinha, to fininha que se entranhava por todos os poros e levantava uma nuvem que no deixava literalmente ver o caminho. O que vale que era largo, e claro que levei com o p porque dezenas me passaram frente, como de costume! Mas o pior estava para vir: a malfadada serra do Ramiro! Que bela pea teria sido o Ramiro, para dar o nome a uma serra com uma subida de 500m a 20% por onde tnhamos de passar! Ainda houve uns corajosos que por ali treparam, no sei se chegaram ao cimo montados ou no

Outra dificuldade do dia: a aproximao a Monsanto. Esta era feita numa longa calada romana extremamente irregular e a subir. Mais um troo de puxa e empurra! Ao reentrar no alcatro imediatamente antes da entrada no centro histrico, avistei logo ali um posto da GNR, e suspeitando de que a minha gua estava quase no fim, entrei e pedi gua. E ainda tomei um caf a preo da tropa! Voltei a montar e uns metros frente dei conta que quem vinha atrs de mim era... a Carol! Que lhe teria acontecido para estar atrs de mim? Seguimos um bom bocado juntas, e soube que tinha tido problemas partida com o seu GPS, e alm disso tinha furado na Malcata e perdeu tempo com isso. A Carol foi comigo algum tempo, e s emitia expresses de admirao perante a beleza daquela localidade, as muralhas, a calada romana (grandes degraus romanos, melhor dizendo!) que foi depois preciso descer para sair dali, e eu com receio de a empatar e ela s dizia que ia muito bem. O que certo que descemos aquilo tudo montadas, graas s nossas suspenses integrais! Mais adiante disse Carol para seguir frente, e nunca mais a vi! O traado a seguir no foi nada fcil: passava pela GR22, e durante um bom bocado era s empurrar a bicicleta, pois havia que descer ou subir grandes calhaus! Nos ltimos 20/30kms o piso bom e a direito ajudaram a completar a etapa a bom ritmo, tendo chegado meta cerca das 17h. Infelizmente foi na meta que soube da triste notcia: a Snia Lopes cara j no ltimo quarto da etapa e fracturara uma clavcula e pulso, o que a colocava fora da corrida. Foi uma pena, pois com o andamento que levava era uma forte candidata liderana feminina.

4 Etapa: Ladoeiro Castelo de Vide (108 Km; Desnvel acumulado 2357m; Fecho do Controlo de Chegada 19h)

Este foi o dia do mergulho! Um dia que no apresentava dificuldades excessivas. Por esta altura, j estava acostumada a andar sempre sozinha. Na verdade, isso permite gerir melhor o meu esforo, no desperdiar energias e no me sentir tentada a ir atrs do ritmo de outra pessoa. Evidentemente que o tempo passa muito melhor e mais depressa se seguirmos acompanhados, sempre se conversa um pouco. Segui sempre concentrada mas ao mesmo tempo descontrada, sem pensar que estava sozinha, simplesmente no pensava nisso. Tinha sempre com que me entreter, a observar a paisagem, a escolher algum local para reabastecer, embora eu reduzisse as paragens ao mnimo indispensvel. Tambm por esta altura j todos os atletas se encontravam familiarizados uns com os outros, j comevamos a ser como uma famlia. Desde o incio, mas em especial a partir do 3/4 dia, sempre me senti muito apoiada e acarinhada pelos outros atletas, cada vez mais me saudavam e puxavam por mim quando passavam, conversvamos sempre um bocadinho, en passant, sempre preocupados se me encontrava bem, etc. Esta das melhores recordaes que levo da TransPortugal, o esprito de camaradagem singular que se viveu nesta prova.

O dia estava a correr muito bem, sentia-me bem fisicamente e parecia finalmente estar a entrar naquele ritmo que j no custa. A uns 20 kms da meta, a seguir a um troo em alcatro, a subir, que fiz sem esforo, saa-se para um eucaliptal com caminho largo e aparentemente bom, e a descer. Entrei bem e a boa velocidade. Quando dei por isso estava no cho, sem saber como, no lado oposto onde seguia e onde a bicicleta tinha ficado! Percebi ento que o caminho coberto de folhas de eucalipto e ervas, tinha sulcos deixados por rodas de carro ou tractor, onde eu tinha entrado sem me aperceber, tendo a roda da frente resvalado num dos bordos do sulco e tendo eu sido projectada, em jeito de mergulho para o lado oposto do caminho. Puxei o brao para o stio dele, levantei-me, analisei a situao, vi que estava tudo a funcionar, assim como a bicicleta, e segui sem grandes demoras antes que comeasse a arrefecer e me comeasse a doer mais. Fiz o resto da etapa com algum desconforto mas nada de especial. Soube mais tarde que mais 2 atletas tinham cado no mesmo stio, sendo um deles o Adriano, que ter ento fracturado uma costela mas tal no o impediu de continuar nesse e nos dias que se seguiram! A chegada a Castelo de Vide foi singular, pois era mais uma vez a subir por uma calada romana onde em muitos stios no era possvel seguir montada. A meta propriamente dita e onde cheguei por volta das 17H40 estava a uma distncia considervel da tenda da organizao. E l estava o Cludio, o nosso precioso elemento de assistncia, para me saudar e guiar at tenda da organizao!

5 Etapa: Castelo de Vide Monsaraz (160 Km; Desnvel acumulado 3236m; Fecho do Controlo de Chegada 20H40)

Se a primeira etapa nos tinha sido apresentada como a mais difcil, esta metia medo a toda a gente, pela enorme distncia que tnhamos de percorrer, j com a fadiga acumulada nos outros dias. Era a etapa rainha, por assim dizer. O dia no podia amanhecer pior e menos desfavorvel a tamanha distncia: estava um autntico temporal, que j se deixara antever no frio fim de tarde da vspera e na noite marcada por chuva e vento. A minha sada estava marcada para as 7h55, e nessa altura chovia tanto e o vento era to forte que dava vontade era de ficar na cama! Isso mesmo devem ter pensado vrios atletas, que no partiram, ou abdicaram do seu handicap para poderem sair mais tarde, como foi o caso da Carol e depois da Hillary. O Cal no se sentiu bem na vspera, pelo que decidiu saltar a etapa. Fui ento a primeira a partir, debaixo daquele temporal, e muito fui aconselhada a ter cuidado na subida de outra calada romana sada de C. Vide, e depois na descida tambm em calada, pois o piso estava completamente escorregadio. Eu tencionava seguir na ntegra estes conselhos, at porque me encontrava algo empenada da queda e porque o vento e a chuva eram to fortes que quase me empurravam para fora dos trilhos! Por isso segui com imenso cuidado, a p na subida, e a passo de caracol na descida. Passei a parte pior, e depois durante a manh o percurso alternava entre subidas e descidas em floresta, em plena Serra de S. Mamede, sempre com a chuva e o vento por companhia, s vezes abrandava um pouco, mas persistiu praticamente todo o dia. Quando os primeiros atletas comearam a passar por mim, entre as 11h e as 11H40, apercebi-me de que me saudavam com alguma admirao Pois com certeza viram em mim a mesma fora de vontade e esprito de sacrifcio que eu via neles, para teimarmos em estar ali e continuar sob aquelas condies.

Esta etapa tinha, para alm de todas as restantes dificuldades, a da existncia de nada mais nada menos do que 32 portes de herdades para abrir e fechar! Eu no estado em que estava devido queda tinha grandes dificuldades nessa simples operao, l ia tendo a sorte de aparecer algum que me fazia esse obsquio. A determinada altura apareceu um grupo grande, em que rolavam o Jorge Manso, o Ricardo Lanceiro, o Cludio Nogueira e muitos outros, e que foram de uma cortesia extrema pois cientes do meu estado j esperavam por mim nalguns portes e deixavam outros abertos para eu passar! Ainda rolei com eles algum tempo, inclusive reabastecemos todos no mesmo caf em Sta. Eullia, at que, prximo de Vila Boim a distncia entre ns ficou maior e ao entrar na povoao e seguindo as ruas que o track indicava dei com...um funeral! A rua estava to cheia de gente e s se viam guarda-chuvas, pois chovia imenso, e tive de dar uma volta ao quarteiro para poder passar-lhe frente e seguir o meu trajecto! A partir dali fui seguindo sozinha. Mas a poucos quilmetros do final travei conhecimento com o Antnio Costa - que estava encalhado espera que algum passasse porque a bomba dele no funcionava - e com o Nuno Machado e depois apareceu o Adriano, com a histria de mais uma queda no incio do dia, a descer a calada romana em C. Vide, tendo as marcas bem visveis no rosto.

A aproximao a Monsaraz trouxe no s a viso da enorme subida que ainda teria de fazer at ao alto da zona histrica, contornando as muralhas, como tambm trouxe a boa recordao de uma Corrida de Aventura em que participei em 2004, cujo prtico de Partida estava exactamente montado na meta desta etapa! E cerca das 20h10, l estava eu a subir (forosamente montada pois estava toda a gente a observar-me!) aquilo que em 2004 descera a correr! Subi com gosto, apesar do cansao e do esforo, pois ter conseguido acabar aquela etapa dentro do tempo, fez-me sentir que a partir dali eu seria capaz de vencer qualquer obstculo. Soube na meta que a Carol abandonara a etapa no quilmetro 80, juntamente com o nosso amigo Pedro Marques.

6 Etapa: Monsaraz - Albernoa (139 Km; Desnvel acumulado 1798m; Fecho do Controlo de Chegada 20h)

Esta foi a etapa mais plana, de paisagem tipicamente alentejana, mas num constante sobe e desce ligeiro, algo montono, que vai massacrando, especialmente aps tantos dias e tantos quilmetros. O dia esteve ameno, com alguns aguaceiros. As albufeiras do Alqueva tambm dominaram a paisagem pela manh. Logo no 1 CP, que era num caf, tive necessidade de parar devido a uma incomodativa acidez no estmago, e estava a queixar-me disto quando um habitante local que ali estava a observar, tira de um bolso uma embalagem de pastilhas Rennie e estende-me uma! Mas que sorte a minha! O problema desapareceu passado pouco tempo. Neste dia tive tambm a agradvel companhia durante bastantes quilmetros do Pedro Soares e do Jorge Mendes, ambos j anteriores participantes no formato de 11 dias. Em determinado caf, tiveram a feliz ideia de parar para beber qualquer coisa (eles disseram uma mini, mas no sei), eu resolvi seguir, mas eles tiveram melhor sorte porque caiu nessa altura uma grande chuvada! A uns 20 kms da meta apareceram logo atrs de mim o Adriano e o Pedro Marques. Dizia o Adriano que o Pedro estava todo satisfeito porque era a primeira vez que me via! Seguimos os trs juntos desde ali at meta, e era curioso que o Pedro, sempre que apanhvamos uma subidita, s repetia com ironia as palavras do A. Malvar no briefing, em que dissera que no h subidas dignas de nota nesta etapa! Cruzmos a meta por volta das 18h e fomos logo assediados pelos media! Estavam l responsveis por um website de BTT e pediram-nos uma entrevista! Soube tambm que o Hugo Velez, que tinha ficado com um tendo de Aquiles em mau estado na vspera e tinha dito que no iria partir hoje, ltima da hora ficou cheio de vontade e partiu na mesma! O esprito da TransPortugal faz-nos cometer estas loucuras!

7 Etapa: Albernoa Caldas de Monchique (134 Km; Desnvel acumulado 2552m; Fecho do Controlo de Chegada 20h)

Esta etapa iniciou-se com um caminho por entre vinhas durante alguns quilmetros, em que apanhmos tambm algum barro lamacento, mas felizmente foi durante pouco tempo. Nesta etapa iramos entrar na serra algarvia, que no fcil, e iramos ter nada mais nada menos que a pior subida de toda a TransPortugal, uma longa subida a 25% com pedras e troncos de eucalipto pelo meio, j na parte final da etapa. Mais ou menos perto do quilmetro 70, j as subidas tinham comeado, aparece o Antnio Costa, muito desgostoso com o estado dos seus joelhos, pois estava cheio de dores. A partir dali fomos sempre juntos, pois os joelhos dele no lhe permitiam andar mais depressa. Foi uma excelente companhia e uma grande ajuda, sem ele no sei se teria conseguido chegar ao fim desta etapa dentro do tempo, a qual se revelou muito mais difcil do que seria imaginvel. Na tal subida a 25%, muito me incentivou e foi puxando por mim, em especial depois de se sair da terra e entrarmos no alcatro, que continuava sempre a subir at muito perto das Caldas de Monchique. Ainda tivemos o incentivo extra de alguns amigos meus que tinham vindo de Lisboa, e do nosso assistente, que estavam parados espera s para nos dar fora! As subidas pareciam no mais acabar, as pernas j no queriam mexer, cad a energia?? Mas l fomos andando os dois, lutando metro a metro, ansiando que os quilmetros baixassem, o que parecia no acontecer. Ainda por cima estava a ficar frio e nevoeiro. Por fim, acabou a subida e a chegada zona termal era por um trilho a descer com alguns troos tipo calada de pedra, e finalmente chegmos meta s 19h40! Que dia difcil. Na TransPortugal no h dias fceis!

8 Etapa: Caldas de Monchique Sagres (95 Km; Desnvel acumulado 1925m; Fecho do Controlo de Chegada 17h)

Eis-nos chegados derradeira etapa desta aventura. Logo para comear, uma subida impressionante para sair das Caldas de Monchique, onde desmontei logo pois sem aquecimento nem valia a pena arriscar. Depois foi um sobe e desce, ainda com bastante sobe durante toda a serra do Espinhao de Co, at chegarmos mais prximos da faixa costeira e onde j se sentia o cheiro do mar. Estava ansiosa por avistar o mar, e quando cheguei zona da Carrapateira, nem queria acreditar que eram dunas e no serras que tinha minha frente, e o cu j reflectia o azul do mar. Tivemos depois a recompensa de andar alguns quilmetros quase sempre beira-mar, e tnhamos sido avisados que iria haver single tracks bastante tcnicos e perigosos nas prprias falsias, onde todo o cuidado era pouco. Assim foi, e na grande maioria fi-los a p, mas o panorama compensava tudo. Desiluda-se quem pense que no houve mais subidas, pois ainda houve muitas e bem duras, embora curtas. No via a hora de chegar a Sagres. Quando me comecei a aproximar, senti-me inundada por um sentimento que no era de alvio, mas sim de enorme satisfao! E quando finalmente cheguei beira da falsia e o caminho me indicava a praia do Amado onde seria a meta, em pleno areal, e comecei a ouvir toda a gente a gritar l em baixo, esse sentimento de satisfao transformou-se em felicidade pura! Cheguei meta por entre aplausos, e mandaram-me logo ir para a areia porque parece que estavam todos minha espera para tirar fotos, embora ainda faltassem outros participantes. Tirmos vrias, e depois foi o mergulho obrigatrio, com as roupas de ciclismo ainda vestidas, nas guas do Atlntico, um mergulho transformado em autntica festa e que soube que nem ginjas aps o esforo, para coroar o grande feito. Depois, sucessivamente, uns de livre vontade, outros levados em braos, foi toda a gente ao banho, desde todo o staff at ao prprio patro do evento, o Antnio! Que grande festa!

Nessa noite houve jantar de encerramento, com entrega de prmios, tendo o grande vencedor da prova sido o belga Peter Paelink, seguido do nosso Joo Marinho, e depois o tambm belga Dominiek Sacre. A primeira concorrente feminina, em 10 lugar, foi a americana Hillary Harrison.

No percam a oportunidade de um dia realizarem o vosso sonho; um sonho de 1000 km de BTT em territrio portugus, uma das mais duras e nicas provas por etapas da Europa a TransPortugal GARMIN!

NOTA: Durante os 1000km da SuperTravessia GARMIN a minha bicicleta no registou um nico furo, pelo menos visvel, ou qualquer avaria mecnica. Cuidem das vossas bikes, pois elas agradecem e retribuem em tempo ganho!

Filomena Gomes
(# 104)

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