À'ventura
 
 

AVENTURA DESPORTIVA NO CAMINHO FRANCS A SANTIAGO DE COMPOSTELA 2 Parte

(por Escada da Costa e Filomena Gomes)

O planeamento e a preparao para uma das mais significativas aventuras das nossas vidas, comeou com cerca de 6 meses de antecedncia. Comemos por reunir uma quantidade de informao que julgmos razovel (na Internet e Turismo Espanhol), e em seguida estudmo-la atentamente com o objectivo de definirmos as etapas. Estas foram definidas com base nos critrios da altimetria e oferta de alojamento disponvel (albergues de peregrinos e penses/hostales). O itinerrio, esse, estava definido desde o primeiro instante: o Caminho Francs original, comeando a ascenso dos Pirinus pela Rota de Napoleo e sempre, sempre fora de estrada, mesmo que esta seguisse paralela ao Caminho nalguns troos. Tambm estava definido desde a primeira hora que no teramos qualquer apoio durante todo o Caminho, pelo que tnhamos de levar permanentemente connosco tudo o que era necessrio vida diria, nossa e das bicicletas.

O treino para tantos quilmetros foi a parte crucial de toda a preparao. Pedalvamos juntos todos os fins-de-semana e feriados: ao Sbado fazamos estrada, entre 80 a 100 Km; o Domingo era o dia do BTT, no qual fazamos entre 50 a 60 Km. Estes treinos quase sempre se prolongavam at horas de calor intenso, o que no evitmos de forma alguma, pois estvamos cientes das elevadas temperaturas que iramos encontrar. Realizmos igualmente um Tria-Sagres, como treino de longa distncia e longa durao. Em paralelo, cada um de ns treinava individualmente durante a semana. A no esquecer, por terem sido valiosas, as sesses de RPM/Spinning que ambos costumvamos frequentar.

Finalmente, aps todos aqueles meses em que sonhvamos com a viagem, chegou o dia em que embarcmos no Sud-Express em Santa Apolnia, s 16h de 27/08, rumo a Hendaye, onde chegaramos s 08h locais de 28/08. A teramos de apanhar o TGV at Bayonne, e por fim um comboio regional at St-Jean-Pied de Port. A tarde desse dia foi passada a visitar a pequena vila. Foi logo notrio o elevado nmero de peregrinos de todas as partes do mundo (menos Portugal) dispostos a comear ali a sua peregrinao. Fomos tambm a um ponto de visita obrigatrio: o centro de acolhimento de peregrinos, onde nos colocaram o primeiro carimbo na Credencial de Peregrino, atestando o incio da nossa viagem. A Credencial o passaporte do peregrino; permite-lhe alojar-se nos albergues da extensa rede existente, bem como beneficiar de redues de preos nalgumas catedrais, igrejas, etc. Foi tambm no Centro que nos ofereceram um dos smbolos incontornveis do Caminho, e que nos haveria de acompanhar at ao fim: uma vieira a cada um. A vieira, que se assemelha de certa forma a uma mo, o smbolo mais visto pelo Caminho fora, no s ostentado pelos peregrinos, como tambm para marcar o Caminho, normalmente tambm complementado por setas amarelas, pintadas ou incrustadas em qualquer stio visvel para quem passa. Na verdade, extremamente fcil seguir o Caminho, mapas so meros complementos, embora se tenham revelado teis nalguns (no muitos) troos menos bem marcados. Viemos igualmente a saber que cada linha/falange da vieira representa um Caminho a Santiago, pois os pontos de partida so os mais diversos, entre eles o Caminho Portugus.

Algo que tentmos no descurar, pois era essencial para que no nos faltassem as foras para continuar, foi a alimentao. Tentvamos sempre tomar um pequeno-almoo razovel, embora no muito abundante. De Lisboa tambm tnhamos levado algumas barras e gel energticos, mas no muitos devido ao peso e volume, pelo que amos intercalando com peas de fruta que amos comprando. hora do almoo procurvamos um bar onde normalmente comamos um bocadillo de presunto ou tortilha, acompanhado de uma bebida isotnica (muito fceis de encontrar nos cafs) ou um copo de vinho tinto! Ao jantar vingvamo-nos e optvamos sempre pelo Menu do Peregrino, com uma ptima relao qualidade/quantidade/preo, onde nunca faltava um prato da preciosa massa.

Tambm no nos vamos esquecer to depressa das sesses de lavagem de roupa nos lavatrios, banheiras e polibans dos albergues e penses! Todos os dias era a mesma coisa depois de chegarmos e antes de irmos jantar, para que no outro dia a roupa se pudesse vestir! Chegmos a colocar roupa num cabide e pendur-lo num candeeiro de iluminao pblica junto janela do quarto para secar!

Eis as etapas por ns realizadas, mas no as que havamos definido inicialmente. Na verdade, fruto da nossa condio fsica no momento e da altimetria e tipo de piso, logrmos reduzir de 12 para 11 etapas/dias. Tambm no sentimos necessidade de fazer nenhum dia de pausa estvamos de tal modo psicolgica e emocionalmente envolvidos naquela experincia que no queramos parar por nada deste mundo! No entanto, sempre que podamos parvamos para visitar o que era possvel (os horrios espanhis so proibitivos!), para nos alimentarmos, para nos hidratarmos ou s para desfrutarmos a paisagem. No Caminho no h pressas!

1 Etapa: Saint-Jean Pied de Port Burguete (28 Km)

A 1 etapa, ligando Frana a Espanha, era a mais mtica e tambm aquela que nos parecia mais difcil, porque era a primeira e porque era a ascenso aos Pirinus, em que se subia dos 233m de altitude at aos 1480m. Tnhamos tudo planeado para sair o mais cedo possvel por causa do calor abrasador que espervamos, mas um imprevisto logo chegada com os porta-bagagens dos guiadores obrigou-nos a esperar pela abertura de uma loja de bicicletas. Fizemos toda a etapa nas horas de maior calor, entre as 11h00 e as 17h30! Optmos por no ficar em Roncesvalles por s existir um albergue nesse local, onde muitos peregrinos escolhem comear o seu Caminho.

2 Etapa: Burguete Puente la Reina (68 Km)

Nesta etapa h a assinalar a subida ao Alto de Erro, a passagem e a visita a Pamplona, seguida de um troo que foi para ns extremamente penoso a subida ao Alto del Perdn devido ao calor que se fazia sentir, ausncia total de sombras e falta de fontes com gua.

3 Etapa: Puente la Reina Logroo (71 Km)

O dia comeou pela passagem por uma das mais belas aldeias do Caminho Cirauqui, uma vila entre muralhas que faz lembrar bidos, mas mais pequena e mais medieval. Durante esta jornada pudemos retemperar foras passagem por Irache, com a sua inslita e literal Fonte do Vinho, oferta das Bodegas Irache a todos os peregrinos.

4 Etapa: Logroo Belorado (72 Km)

Nesta etapa deixamos Navarra para trs e entramos na Rioja. Comeam os longos troos rolantes que iro caracterizar os prximos dias, e em que o verde comea aos poucos a ser substitudo por tons amarelados que iro dominar a paisagem at prximo dos Montes de Lon.

5 Etapa: Belorado Castrojeriz (92 Km)

Esta etapa foi praticamente iniciada com a subida aos Montes de Oca, logo seguida pela Cruz dos Cados, uma subida com muita rocha. Neste dia passmos por Burgos, onde foi para ns a cidade mais bela que encontrmos no Caminho, com a sua imponente Catedral, que no foi possvel visitar devido durao da visita e ao preo elevado!

6 Etapa: Castrojeriz El Burgo Ranero (103 Km)

Etapa caracterizada pelo calor intenso, a ausncia de sombras, as interminveis plancies da meseta ibrica e a modstia do local onde escolhemos pernoitar.

7 Etapa: El Burgo Ranero Astorga (86 Km)

Passmos neste dia pela importante cidade de Lon, e tivemos a sorte de se estar a celebrar uma missa na Catedral, proporcionando-nos a experincia de sentir a acstica do local e o magnfico som do rgo. Seguimos para Astorga, uma cidade mais pequena mas no menos encantadora, com a sua Catedral de tom rosado e o magnfico Palcio Episcopal de Gaud.

8 Etapa: Astorga Villafranca del Bierzo (75 Km)

Etapa que contou com a durssima subida Cruz de Ferro, o ponto mais alto do Caminho, a 1504m, logo seguida da espectacular descida at ao Acebo. Nessa descida parmos para ajudar o Alfonso (que no conhecamos mas ficmos a conhecer), que tinha furado e a bomba que trazia no funcionava. Voltmos a encontr-lo vrias vezes, se bem que o Alfonso, que fazia o Caminho pela 3 vez, sozinho, pedalava muito mais rpido que ns!

9 Etapa: Villafranca del Bierzo Sarria (71 Km)

Esperava-nos neste dia a subida ao Cebreiro, sendo 8 km sempre a subir at aos 1320m, que tivemos de fazer debaixo de chuva intensa e persistente. Passmos nessa tarde por Fonfra, onde o dono do albergue local, o simptico brasileiro Accio, de razes transmontanas, quis ficar com a nossa bandeira nacional! Perto do final, optmos por seguir para o nosso destino via Samos, para podermos admirar o seu lindssimo mosteiro beneditino.

10 Etapa: Sarria Melide (60 Km)

De destacar nesta etapa a passagem por Portomarn, uma bonita vila erguida de novo junto barragem do Rio Minho, visto que a vila original encontra-se submersa pelas guas da barragem. A igreja local foi removida e colocada novamente pedra sobre pedra na nova localizao da povoao.

11 Etapa: Melide Santiago de Compostela (55 Km)

Derradeira etapa, em que a nostalgia comeava j a apoderar-se de ns. Passagem por bonitos trilhos entre bosques verdejantes.

A quilometragem que indicamos a que se pode ler nos mapas. No entanto, chegada a Santiago de Compostela os nossos conta-quilmetros, devidamente aferidos, marcavam 840 km, e no os 781 Km decorrentes da soma das etapas acima. Sendo certo que fizemos um ou outro desvio em busca de alojamento ou bar, tambm pudemos constatar que as quilometragens indicadas no parecem ser muito exactas.

A chegada a Santiago foi para ns um misto de alegria e tristeza. Porqu? Sem dvida que o cansao acumulado j fazia das suas. Mas sobretudo pela nostalgia que j sentamos por estar a acabar... A entrada na Praa do Obradoiro foi a consagrao da nossa aventura. Ficmos ali um bocado, depois dirigimo-nos Oficina do Peregrino, onde recolheramos a prova oficial da nossa viagem: a Compostela, um certificado oficial em Latim que a catedral de Santiago outorga ao peregrino que tenha completado um mnimo de 100 km a p ou a cavalo, ou 200 km de bicicleta.

Sensao estranha a de sabermos que no dia seguinte j no iramos pedalar, j no seguiramos setas amarelas, nem to pouco escutaramos a j familiar saudao entre peregrinos buen camino.

Quem faz o Caminho no mais o esquece. Algo muda dentro de ns.

A vs descobri-lo!

Escada da Costa
Filomena Gomes

AS BICICLETAS: - Gary Fisher Cake, amortecedor Manitou Swinger SPV, suspenso Pace RC40, grupo XT, traves Shimano XT Disc; - Specialized Epic M5, amortecedor Fox Brain, suspenso Manitou Skareb SPV, grupo Shimano XT, traves Magura HS33. Balano zero avarias, alguns furos, 1 corrente partida.

AGRADECIMENTO: Gostaramos de agradecer, uma vez mais, com sinceridade e amizade ao Artur Baptista, voluntarioso membro da equipa EcoAtitude, que teve a pacincia e a boa vontade de fazer muitos quilmetros para nos ir buscar a Santiago, em prejuzo das suas horas de descanso. Bem haja!

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